Meu amigo, faltam palavras onde sobra saudade

Cláudio Santili: sua nobre missão foi do tamanho da sua dignidade e do seu coração generoso

Nos ares campestres da cidade de Ribeirão Preto, em uma bela chácara cercada pela natureza, agraciado pelo amor da família, nasceu e se desenvolveu o menino Cláudio Santili. Eram os anos sessenta e imigrantes de várias origens escolhiam o Brasil como um porto seguro, a terra firme, longe das oscilações geopolíticas. 

Descendente de italianos, os Javaronis e os Santilis, ele cresceu com o olhar curioso sobre o “país da bota”. Afinal, seu sobrenome era muito diferente, o que gerava curiosidade nos outros meninos. 

A natureza festiva da família era explicada pela genética forte, bem como a expressividade, o linguajar alto, as gesticulações, o amor ao gosto da comida e ao vinho. As reuniões, então, eram grandes acontecimentos sociais. Música e muçarela italiana fresca formavam uma combinação prazerosa naqueles tempos de criancice. 

O pequeno Santili, estudioso e vibrante, era um exemplo de tenacidade. Gostava de tratar os ferimentos dos animais e ajudava com os machucados dos colegas. Já se incorporava a figura do Esculápio. 

Cativante, educado e disciplinado, era um pouco tímido, pois o seu universo ainda era as redondezas, as cercanias do interior. Não conhecia o mundo externo e as fronteiras mais longínquas. 

Na adolescência, porém, tudo mudou. Prestou vestibular para várias faculdades, sendo aprovado em medicina. Iria para longe de casa, uma prova de determinação. Escolheu a famosa Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, concorrida e iluminada. 

Mudou para a metrópole paulista com a coragem de um desbravador. Lá, fez amizades genuínas, se aproximou de boas pessoas, ajudou e foi ajudado e se lançou em um mergulho profundo nos livros. 

O jovem torcedor do Corinthians se encantou pelo cotidiano febril do paulistano, pela neblina fina e a chuva fria da “Terra da Garoa”. E se adaptou bem, sem vacilos. 

Formado, fez sua especialização médica no Pavilhão, o “Berço da Ortopedia Brasileira”. Escolheu a Ortopedia Pediátrica. Nela, fez-se mestre e doutor, a área da sua expertise. 

A sua trajetória nesses corredores foi muito longa e se misturou com uma característica marcante de Santili: a intensidade de suas emoções e, principalmente, do seu bem querer. 

Tornou-se o mentor de gerações de alunos na Ortopedia, um pai reverenciado como exemplo. Ele se amplificava na inteligência, no esforço em superar as dificuldades, no comportamento altruísta, no perfeccionismo modelar, na liderança, proteção e fidelidade ao seu grupo de trabalho. 

Extremamente criativo e resoluto cirurgicamente, idealizava instrumentais com uma competência singular. Ensinava com felicidade e transformava o difícil em fácil. 

Sua produção científica impressionava. Galgou todas as posições de destaque na estrutura complexa da vida acadêmica e associativa. Foi presidente da SBOT e adorava a CET. 

Pontual, organizado, brincalhão, era o primeiro a chegar na Sala do Exame Físico do TEOT por décadas. Era atento aos detalhes, desde o ambiente até às pessoas. 

Sua mente era ágil e lógica. Gostava de homenagear os decanos e via em seus discípulos qualidades, indissociáveis do professor que sempre foi. 

Encontrou na Sônia, o seu grande amor, a sua eterna garota, a alma gêmea da sua existência, a esposa e musa que fazia a roda girar, potencializava a sua veia romântica e a sua paz no lar. Um belo casal, charmoso, acolhedor, elegante e uníssono. Casaram-se em 1980. Formaram uma família sólida e linda. Seus filhos, Érika e Guilherme Eduardo, são o resultado exemplar dessa união espiritual e tão admirável.

Santili, além de um grande médico, foi também um grande escritor. Seus textos eram de uma textura poética irretocável.  Sabia “valsar com as palavras” com melodias agradáveis aos nossos sentidos. Exercia a literatura em fases cíclicas, mas sempre com muito talento. 

Esse ecletismo multifacetado do grande escritor Santili fará falta a esse mundo tão impregnado de anacronismos. Ele era um exímio consertador de coisas erradas, não importando se diante de um desalinhamento ortopédico ou de um problema factual a desafiá-lo. Ele chegava à solução com método, pragmatismo  e destreza. 

Querido amigo Santili, é verdadeiramente dolorosa a sua partida tão súbita. Que a sua família suporte o sofrimento da separação terrena amparada na fé inquebrantável em Cristo. A sua nobre missão foi do tamanho da sua dignidade e do seu coração generoso. Seu legado servirá de exemplo eterno para os jovens ortopedistas do presente e do futuro.