Reflexões de um robô
Por Dr. Cláudio Santili
Pirulito
Iaiá dá o braço prá Ioiô!
Ioiô dá o braço prá Iaiá!
O tempo de criança já passou...
João de Barro (Braguinha)/ Alberto Ribeiro
Tempos modernos, bombardeios de informação e de repente fiz uma pergunta para o ChatGPT: Qual é o papel atual do médico na visão da instituição (hospital/ empresa) e do paciente?
Não diria que me surpreendido totalmente, como neófito nesse assunto, mas confesso que não sabia exatamente como a IA está utilizando o seu conhecimento para nos apresentar algumas propostas de soluções para os nossos questionamentos. E tudo com uma rapidez impressionante. MAS, calma! Muita calma nessa hora! Ainda há imperfeições e sem qualquer pudor ou sentimento de culpa, por parte dela.
A visão da instituição (hospital/empresa)
Nos últimos anos, o hospital passou a enxergar o médico menos como o "dono do paciente" e mais como um potencial recurso produtivo, dentro de uma linha de cuidado. Algumas mudanças marcam isso:
1) O médico passou do profissional liberal ao prestador gerenciado de serviços. Antes, o médico trazia o paciente e o hospital era a estrutura de apoio. Hoje, com a verticalização (empresas que compraram hospitais e vice-versa), o paciente chega pela operadora ou pela marca do hospital, e o médico muitas vezes é substituível dentro da escala. A "pejotização" reforça essa lógica de prestação de serviço, e não de vínculo entre o médico e o paciente.
2) Gestão por indicadores. O médico é avaliado por métricas: tempo de permanência do paciente, taxa de reinternação, infecção do sítio cirúrgico, consumo de OPME, adesão aos protocolos, glosas etc. Na ortopedia, isso é muito visível, com pacotes fechados de artroplastia e controle rígido de implantes.
3) Custo versus valor. Há uma transição, ainda incipiente no Brasil, do fee-for-service para modelos de remuneração por desfecho (value-based care). Nesse modelo, o bom médico é o que entrega resultado com previsibilidade de custo, não o que faz mais procedimentos com boa resolubilidade.
4) Reputação institucional acima da individual. O hospital quer que a marca seja o que o paciente lembre. Além do “anonimato”, médico também é visto como um risco jurídico e reputacional a ser gerenciado, com compliance, documentação e protocolos de segurança.
A visão do paciente
5) Do lado do paciente, a mudança principal é a perda da autoridade inerente ao médico e a entrada da lógica de consumidor.
6) Do paternalismo à autonomia. O paciente quer participar da decisão, questionar e comparar opções. A decisão compartilhada deixou de ser diferencial e passou a ser expectativa.
7) Informação prévia. Primeiro veio o "Dr. Google", agora as ferramentas de IA. O paciente chega com hipóteses, às vezes corretas, às vezes equivocadas, e espera que o médico dialogue com isso, em vez de ignorar.
8) Médico como prestador, sendo avaliado. Avaliações no Google e em plataformas de agendamento, além da presença em redes sociais, influenciam a escolha. O paciente avalia pontualidade, comunicação e acolhimento, às vezes mais do que a capacitação técnica, que ele não tem como julgar.
9) Vínculo fragmentado. Com a rotatividade de escalas, a telemedicina e o atendimento por plataformas, o paciente frequentemente não tem "o seu médico", mas sim um serviço. Isso reduz a confiança pessoal e facilita o conflito.
10) Judicialização e desconfiança. O aumento de processos e reclamações reflete uma relação mais contratual. A pandemia também polarizou a confiança na medicina: para parte das pessoas ela aumentou, para outra parte se deteriorou.
O ponto central para a discussão
As duas visões convergem em um ponto: o médico deixou de ser uma autoridade autônoma e passou a ser parte de um serviço. O hospital o vê como gestor de recursos e de riscos, e que o paciente como prestador deve explicar, acolher e ser avaliado.
Isso cria uma tensão interessante para debater. O médico passa a responder a dois "clientes" com expectativas que às vezes se chocam. O hospital cobra eficiência e padronização. O paciente cobra tempo, personalização e escuta. Quem consegue equilibrar os dois, com boa comunicação e bom desfecho mensurável, tende a ser valorizado pelos dois lados.
Algumas perguntas que podem provocar maior discussão:
- A perda de autonomia do médico melhorou ou piorou a qualidade do cuidado?
- Protocolos protegem o paciente ou engessam a decisão clínica?
- Como construir vínculo num modelo em que o paciente "pertence" à instituição?
- Qual será o papel da IA: vai reforçar a autoridade do médico ou diluí-la ainda mais?
Saudações!
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Meu amigo, faltam palavras onde sobra saudade
Por Dr. Aloisio Bonavides

Nos ares campestres da cidade de Ribeirão Preto, em uma bela chácara cercada pela natureza, agraciado pelo amor da família, nasceu e se desenvolveu o menino Cláudio Santili. Eram os anos sessenta e imigrantes de várias origens escolhiam o Brasil como um porto seguro, a terra firme, longe das oscilações geopolíticas.
Descendente de italianos, os Javaronis e os Santilis, ele cresceu com o olhar curioso sobre o “país da bota”. Afinal, seu sobrenome era muito diferente, o que gerava curiosidade nos outros meninos.
A natureza festiva da família era explicada pela genética forte, bem como a expressividade, o linguajar alto, as gesticulações, o amor ao gosto da comida e ao vinho. As reuniões, então, eram grandes acontecimentos sociais. Música e muçarela italiana fresca formavam uma combinação prazerosa naqueles tempos de criancice.
O pequeno Santili, estudioso e vibrante, era um exemplo de tenacidade. Gostava de tratar os ferimentos dos animais e ajudava com os machucados dos colegas. Já se incorporava a figura do Esculápio.
Cativante, educado e disciplinado, era um pouco tímido, pois o seu universo ainda era as redondezas, as cercanias do interior. Não conhecia o mundo externo e as fronteiras mais longínquas.
Na adolescência, porém, tudo mudou. Prestou vestibular para várias faculdades, sendo aprovado em medicina. Iria para longe de casa, uma prova de determinação. Escolheu a famosa Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, concorrida e iluminada.
Mudou para a metrópole paulista com a coragem de um desbravador. Lá, fez amizades genuínas, se aproximou de boas pessoas, ajudou e foi ajudado e se lançou em um mergulho profundo nos livros.
O jovem torcedor do Corinthians se encantou pelo cotidiano febril do paulistano, pela neblina fina e a chuva fria da “Terra da Garoa”. E se adaptou bem, sem vacilos.
Formado, fez sua especialização médica no Pavilhão, o “Berço da Ortopedia Brasileira”. Escolheu a Ortopedia Pediátrica. Nela, fez-se mestre e doutor, a área da sua expertise.
A sua trajetória nesses corredores foi muito longa e se misturou com uma característica marcante de Santili: a intensidade de suas emoções e, principalmente, do seu bem querer.
Tornou-se o mentor de gerações de alunos na Ortopedia, um pai reverenciado como exemplo. Ele se amplificava na inteligência, no esforço em superar as dificuldades, no comportamento altruísta, no perfeccionismo modelar, na liderança, proteção e fidelidade ao seu grupo de trabalho.
Extremamente criativo e resoluto cirurgicamente, idealizava instrumentais com uma competência singular. Ensinava com felicidade e transformava o difícil em fácil.
Sua produção científica impressionava. Galgou todas as posições de destaque na estrutura complexa da vida acadêmica e associativa. Foi presidente da SBOT e adorava a CET.
Pontual, organizado, brincalhão, era o primeiro a chegar na Sala do Exame Físico do TEOT por décadas. Era atento aos detalhes, desde o ambiente até às pessoas.
Sua mente era ágil e lógica. Gostava de homenagear os decanos e via em seus discípulos qualidades, indissociáveis do professor que sempre foi.
Encontrou na Sônia, o seu grande amor, a sua eterna garota, a alma gêmea da sua existência, a esposa e musa que fazia a roda girar, potencializava a sua veia romântica e a sua paz no lar. Um belo casal, charmoso, acolhedor, elegante e uníssono. Casaram-se em 1980. Formaram uma família sólida e linda. Seus filhos, Érika e Guilherme Eduardo, são o resultado exemplar dessa união espiritual e tão admirável.
Santili, além de um grande médico, foi também um grande escritor. Seus textos eram de uma textura poética irretocável. Sabia “valsar com as palavras” com melodias agradáveis aos nossos sentidos. Exercia a literatura em fases cíclicas, mas sempre com muito talento.
Esse ecletismo multifacetado do grande escritor Santili fará falta a esse mundo tão impregnado de anacronismos. Ele era um exímio consertador de coisas erradas, não importando se diante de um desalinhamento ortopédico ou de um problema factual a desafiá-lo. Ele chegava à solução com método, pragmatismo e destreza.
Querido amigo Santili, é verdadeiramente dolorosa a sua partida tão súbita. Que a sua família suporte o sofrimento da separação terrena amparada na fé inquebrantável em Cristo. A sua nobre missão foi do tamanho da sua dignidade e do seu coração generoso. Seu legado servirá de exemplo eterno para os jovens ortopedistas do presente e do futuro.