Dia do Ortopedista: como formar ortopedistas em tempos de atalhos?

A Ortopedia demanda conhecimento de anatomia, biomecânica, clínica, diagnóstico por imagem, tratamento conservador e cirurgia

Em outubro, comemoramos o Dia do Médico. Ser médico é compreender que a ciência orienta, mas é a humanidade que dá sentido ao cuidado. É reconhecer, em cada paciente, uma vida que merece respeito, acolhimento e dignidade. É fazer da Medicina não apenas uma profissão, mas um compromisso permanente com o ser humano.

Outubro também nos convida a celebrar o Dia do Ortopedista. O nosso Dia!

A Ortopedia brasileira construiu, ao longo de décadas, uma tradição de formação que merece ser preservada. A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia - SBOT fez do ensino, do treinamento e da avaliação de seus especialistas parte essencial de sua própria identidade.

Sua missão institucional é clara: aprimorar as condições científicas, profissionais e éticas dos ortopedistas, tendo como finalidade a qualidade da assistência oferecida à população.

Não se trata apenas de uma declaração de princípios. A formação tradicional do ortopedista brasileiro percorre anos de treinamento supervisionado, exposição progressiva a situações clínicas e cirúrgicas, aprendizado à beira do leito, ambulatórios, enfermarias, centros cirúrgicos, urgências e intermináveis plantões.

Ao final desse percurso, a SBOT ainda exige a demonstração de competência para a obtenção do Título de Especialista em Ortopedia e Traumatologia -TEOT. Atualmente, o exame compreende avaliação teórica e, em sua segunda etapa, provas teórico-práticas e testes de habilidades destinados a avaliar competências clínicas e cirúrgicas.

Mais recentemente, a Sociedade incorporou também o Teste de Progresso dos Residentes em Ortopedia e Traumatologia -TEPOT, acompanhando o desenvolvimento dos residentes durante sua formação e permitindo identificar deficiências antes mesmo da avaliação final.

Há, portanto, uma ideia que atravessa esse modelo: não existem atalhos para a competência. E talvez seja justamente essa ideia que mereça reflexão neste momento.

A Ortopedia é uma especialidade exigente. Exige conhecimento de anatomia, biomecânica, clínica, diagnóstico por imagem, tratamento conservador e cirurgia. Exige habilidade manual, capacidade de decisão e disponibilidade para enfrentar urgências que não escolhem hora nem circunstância.

Fraturas expostas, politraumatizados, crianças lesionadas, idosos com fraturas por fragilidade, infecções osteoarticulares, tumores, lesões esportivas e doenças degenerativas não podem ser adequadamente tratados por quem apenas frequentou cursos breves ou aprendeu técnicas isoladas.

É preciso formação. É preciso tempo. É preciso supervisão. É preciso experiência.

Talvez por isso devamos observar com preocupação algumas transformações que vêm ocorrendo entre os jovens médicos. Há a percepção, em diferentes ambientes de formação, de menor disposição de parte dos egressos para percorrer residências médicas longas, trabalhosas e altamente exigentes. Paralelamente, tornaram-se atraentes áreas de atuação que prometem retorno profissional mais rápido, maior previsibilidade de horários e, em alguns casos, acesso ao mercado por cursos e certificações que não correspondem à formação tradicional de uma especialidade médica.

A estética talvez seja a expressão mais visível desse fenômeno, mas não é propriamente ela o problema. O médico tem o direito de escolher seu caminho profissional. O que merece preocupação é outra coisa: a substituição progressiva da formação estruturada pela procura do atalho.

Cursos de curta duração não equivalem à residência médica. O treinamento em determinado procedimento não transforma, por si só, alguém em especialista. Certificados não substituem anos de prática supervisionada e denominações profissionais, por mais atraentes que possam parecer ao público, não devem ser confundidas com especialidades formalmente reconhecidas.

A Medicina contemporânea oferece tecnologias extraordinárias. Na própria Ortopedia, artroscopia, cirurgia minimamente invasiva, navegação, robótica, planejamento tridimensional, biológicos e inteligência artificial modificam rapidamente nossa prática.

Mas a tecnologia não diminuiu a necessidade de formação, ao contrário: quanto mais sofisticada a Medicina, maior deve ser a preparação daquele que a exerce. É possível aprender uma técnica em pouco tempo. Muito mais difícil é aprender quando indicá-la, quando não a realizar, reconhecer suas limitações, tratar suas complicações e oferecer alternativas quando ela não for a melhor solução para aquele paciente. Essa diferença é fundamental: ela separa o domínio de um procedimento do exercício de uma especialidade, e talvez esteja aí uma das maiores responsabilidades da SBOT para as próximas gerações.

Preservar o rigor não significa permanecer presa ao passado. A própria Sociedade demonstra o contrário ao incorporar avaliação longitudinal, educação continuada, novas tecnologias e modernos métodos de treinamento. Preservar o rigor significa compreender que determinados valores não envelhecem. Não se trata de reserva de mercado. Trata-se, novamente, de preservar a qualidade e valorizar a segurança.

Competência não se improvisa. Experiência não se compra. Responsabilidade não se terceiriza.

Ao mesmo tempo, nós, ortopedistas, precisamos perguntar por que uma formação que tanto valorizamos pode estar se tornando menos atraente para alguns jovens médicos.

Não seria suficiente responsabilizá-los, é preciso examinar as condições da residência, a sobrecarga de trabalho, a remuneração, a qualidade da preceptoria, as perspectivas profissionais e a própria transformação das expectativas das novas gerações. Se queremos os melhores jovens na Ortopedia, não basta dizer-lhes que nosso caminho é difícil. Precisamos demonstrar porque vale a pena percorrê-lo.

Porque há algo que nenhum atalho profissional consegue oferecer.

Há o momento em que um politraumatizado volta a andar. Há a criança cuja deformidade foi corrigida e que poderá construir uma vida diferente. Há o idoso que, depois de uma fratura, recupera sua independência. Há o atleta que retorna ao esporte. E há o paciente que chega imobilizado pela dor e reencontra movimento, autonomia e dignidade. É para esses momentos que formamos ortopedistas.

Então, retornamos à pergunta inicial: temos o que comemorar? Sim, temos.

Pertencemos a uma especialidade que construiu uma cultura de formação, treinamento, avaliação e educação continuada, na qual gerações de ortopedistas aceitaram ensinar outras gerações, transmitindo não apenas técnicas cirúrgicas, mas também julgamento, responsabilidade e ética. Temos o que comemorar enquanto houver jovens médicos dispostos a compreender que o caminho mais trabalhoso pode também ser o mais transformador.

E temos o que comemorar porque contamos com uma entidade como a SBOT, cujos processos de formação e avaliação reafirmam que ser especialista deve significar mais do que assim se denominar: deve significar demonstrar competência para sê-lo. É, portanto, uma data para reconhecer nossa especialidade, sua história e aqueles que a construíram, mas também uma oportunidade para refletir sobre o futuro.

Talvez, neste momento, uma pergunta mereça ser feita: como continuaremos formando os ortopedistas das próximas gerações?

A pergunta não é trivial. Vivemos um tempo marcado pela velocidade. A informação tornou-se instantânea, as transformações tecnológicas sucedem-se rapidamente e as expectativas profissionais mudaram. Jovens médicos procuram, legitimamente, realização profissional, qualidade de vida, reconhecimento e perspectivas compatíveis com o esforço dedicado à formação.

Nesse cenário, especialidades que exigem residências intensas, treinamento prolongado e grande disponibilidade pessoal enfrentam novos desafios para atrair e formar seus futuros especialistas.

A Ortopedia certamente está entre elas, mas há algo que não deveríamos esquecer: a excelência da Ortopedia brasileira foi construída justamente sobre uma cultura de formação exigente, e a SBOT ocupa posição central nessa história.

Ao longo das décadas, nossa Sociedade fez mais do que congregar especialistas. Ajudou a construir no Brasil um verdadeiro sistema de formação ortopédica, baseado em residência médica estruturada, treinamento supervisionado, avaliação progressiva, certificação e educação continuada. 

A formação começa nos serviços credenciados, onde o futuro ortopedista aprende muito mais do que técnicas. Nos ambulatórios, enfermarias, centros cirúrgicos, urgências e plantões, o conhecimento adquirido nos livros encontra o paciente real. Ali se aprendem anatomia, biomecânica, diagnóstico, tratamento conservador e cirurgia. Mas ali também se formam julgamento clínico, prudência, capacidade de decisão, reconhecimento das próprias limitações e responsabilidade pelas consequências de cada escolha.

Instrumentos de avaliação durante a residência, como o Teste de Progresso dos Residentes em Ortopedia e Traumatologia - TEPOT, integram esse processo de acompanhamento da formação. Ao final, o Título de Especialista em Ortopedia e Traumatologia -TEOT representa outro marco dessa trajetória. Seu significado ultrapassa uma prova ou uma certificação. O título deve representar, perante a sociedade, que aquele médico percorreu uma formação estruturada e demonstrou conhecimentos e competências compatíveis com a responsabilidade de ser reconhecido como ortopedista.

Residência. Preceptoria. Avaliação. TEOT. Essas etapas expressam um princípio simples, mas fundamental: não existem atalhos para a competência. 

A contribuição da SBOT para a formação do ortopedista não termina com o TEOT. Uma das maiores forças da Ortopedia brasileira está justamente na estrutura científica que se desenvolveu em torno de suas diferentes áreas de atuação. Quadril, joelho, coluna, ombro e cotovelo, mão, pé e tornozelo, trauma, ortopedia pediátrica, oncologia ortopédica, reconstrução e alongamento ósseo, medicina esportiva e as demais áreas que constituem o universo contemporâneo de nossa especialidade criaram ambientes extraordinariamente férteis de ensino e desenvolvimento científico.

As sociedades e os comitês de subespecialidades aprofundaram o conhecimento recebido na formação geral. Seus congressos, cursos, jornadas, programas de aperfeiçoamento, publicações, consensos, pesquisas e intercâmbios nacionais e internacionais permitiram que o ortopedista brasileiro acompanhasse, e, muitas vezes, participasse da evolução mundial da especialidade.

Essa estrutura merece ser valorizada. Ela representa uma verdadeira rede nacional de educação ortopédica continuada.

Muitas cirurgias que praticamos hoje não são aquelas que aprendemos décadas atrás. Isto pode ser dito das cirurgias do quadril, do joelho, da coluna, do ombro, da mão ou do pé; do tratamento do trauma complexo; das deformidades da criança; dos tumores musculoesqueléticos; da medicina esportiva e de tantas outras áreas. Cada avanço exigiu pesquisa. Cada nova técnica exigiu avaliação. Cada inovação exigiu ensino. E cada geração precisou formar a geração seguinte.

Por isso, talvez possamos representar a formação ortopédica como uma cadeia: inicia-se na graduação, consolida-se na residência, acompanha-se pela avaliação, confirma-se no TEOT, aprofunda-se na subespecialização e prossegue na educação continuada, na pesquisa e no ensino.

Essa cadeia não termina: transforma-se em um ciclo.

O estudante torna-se médico; o médico torna-se residente; o residente torna-se ortopedista e aprofunda sua formação. Alguns tornam-se pesquisadores, preceptores e professores. E, um dia, aquele que aprendeu passa a ensinar. É assim que uma especialidade atravessa gerações. Talvez por isso devamos observar com atenção uma característica de nosso tempo: a sedução pelos caminhos rápidos.

Multiplicaram-se cursos, certificações e treinamentos capazes de ensinar procedimentos específicos em períodos relativamente curtos. Alguns podem ter seu valor como instrumentos de aperfeiçoamento profissional. O problema surge quando o treinamento pontual passa a ser confundido com formação especializada. Cursos não equivalem à residência médica. Certificados não substituem experiência supervisionada e aprender uma técnica não transforma, por si só, alguém em especialista.

Não se trata de defender territórios profissionais. Trata-se de defender algo muito mais importante: a segurança do paciente.

A Ortopedia lida diariamente com situações em que decisões inadequadas podem resultar em incapacidade permanente. Fraturas expostas, politraumatizados, infecções, tumores, deformidades, lesões esportivas, doenças degenerativas e reconstruções complexas não admitem formação superficial. Por isso, existe um princípio que nossa Sociedade deve continuar defendendo: não devemos competir com os atalhos oferecendo atalhos.

Preservar a exigência, entretanto, não significa ignorar as transformações das novas gerações. Se queremos que excelentes estudantes continuem escolhendo a Ortopedia, precisamos também perguntar se a formação que lhes oferecemos corresponde ao esforço que deles exigimos.

Como estão nossos programas de residência? Temos preceptores presentes e valorizados? Oferecemos verdadeiro ambiente de ensino? O residente participa progressivamente das decisões e dos procedimentos? Incorporamos adequadamente simulação, novas tecnologias e modernos métodos educacionais? Criamos ambientes respeitosos, capazes de ensinar sem confundir exigência com inadequação nas relações?

E talvez a pergunta mais importante: estamos mostrando aos jovens médicos por que vale a pena ser ortopedista?

Esse desafio não pertence apenas à SBOT. Pertence a todos nós: aos serviços credenciados, aos chefes de serviço, aos professores, aos preceptores, às sociedades e aos comitês de subespecialidades e a cada ortopedista que recebe um estudante ou residente ao seu lado. Porque formar uma nova geração não significa apenas transmitir aquilo que sabemos, significa despertar nela o desejo de aprender mais.

A resposta às transformações contemporâneas não deve ser diminuir a qualidade da formação. Deve ser aumentá-la. Precisamos de melhores programas, melhores condições de treinamento, preceptores valorizados, participação clínica e cirúrgica progressiva, avaliação séria, acesso à pesquisa e à inovação e integração cada vez maior entre a formação geral e as subespecialidades.

Não precisamos tornar a Ortopedia mais fácil para torná-la mais atraente. Precisamos torná-la melhor.

E precisamos mostrar aos jovens aquilo que nenhuma certificação rápida pode oferecer: a extraordinária experiência de exercer uma especialidade capaz de modificar concretamente a vida das pessoas, de devolver-lhes movimento, autonomia, dignidade e a possibilidade de retomar suas atividades.

É para essas pessoas que formamos ortopedistas.

Neste Dia do Ortopedista, temos, sim, o que comemorar!

Temos uma Sociedade que construiu uma tradição de formação e avaliação. Temos serviços que há décadas formam especialistas. Temos o TEOT como marco de nossa identidade profissional. Temos sociedades e comitês de subespecialidades que constituíram uma extraordinária rede de ensino, pesquisa e atualização científica.

E temos milhares de ortopedistas que, muitas vezes silenciosamente, dedicam parte de suas vidas a ensinar aqueles que virão depois deles, mas comemorar também significa assumir responsabilidade. Recebemos de nossos mestres uma especialidade construída ao longo de gerações, cabe-nos entregá-la aos que virão depois de nós ainda melhor do que a recebemos.

Não mais fácil.

Melhor!

Talvez esse seja um dos maiores desafios atuais da SBOT: preservar o rigor que construiu a excelência da Ortopedia brasileira e, simultaneamente, fazer com que os melhores jovens médicos continuem desejando percorrer esse caminho. Porque toda essa estrutura — residência, preceptoria, avaliação, TEOT, subespecialidades, educação continuada, pesquisa, inovação e ensino não existe para proteger títulos ou instituições. Existe para proteger o paciente. 

Aquele que deposita em nossas mãos sua dor, seu movimento, sua autonomia e, algumas vezes, sua própria vida.

No Dia do Ortopedista, essa é uma grande razão para comemorarmos nossa especialidade e uma razão ainda maior para continuarmos merecendo fazê-lo.