Cláudio Santili e a Moderna Ortopedia Brasileira (1952–2026)

Santili colocou sua engenhosidade a serviço do dia a dia do ortopedista

Poucos ortopedistas contribuíram tanto quanto Cláudio Santili para o desenvolvimento da Ortopedia brasileira nas últimas quatro décadas, em especial da Ortopedia Pediátrica. Incansável, entusiasmado, articulado e sempre disposto a novos desafios, ele deixou seu nome ligado a muitas das siglas que marcam a nossa especialidade: PFS, CEC, CET, TEOT, SBOT, SBOP e ABOT.

Origens e formação

Nasceu em Ribeirão Preto (SP), em 30 de outubro de 1952, filho de Elvira e Gildo Santili. Foi um dos quatro filhos do casal e cresceu na chácara do avô Domingos.

Ingressou na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) em 1973 e graduou-se em 1978. Cumpriu três anos de residência médica, um em Cirurgia Geral e dois em Ortopedia, no Pavilhão Fernandinho Simonsen (PFS), sede do Departamento de Ortopedia e Traumatologia (DOT). Em 1980 casou-se com Sonia Aparecida Lemes Costa, com quem teve dois filhos, Erika e Guilherme Eduardo.


Casais Santili e Lech, no CBOT, em Brasília (2010)


Uma vida dedicada à Santa Casa

Em 1982, obteve o Título de Especialista em Ortopedia e Traumatologia (TEOT), em Ribeirão Preto. No mesmo ano, tornou-se plantonista e auxiliar de ensino, para chefiar o Grupo Azul de Traumatologia Geral e atuar no Grupo de Ortopedia Pediátrica. Passou depois a integrar o corpo clínico, foi preceptor e coordenador de ensino por 20 anos, chefiou o Grupo de Ortopedia Pediátrica de 1994 a 2005 e dirigiu o DOT de 2005 a 2008.

Em 1996, defendeu sua tese de doutorado “Tratamento da subluxação e luxação congênitas do quadril pelo método associado da operação de Salter com o encurtamento ósseo femoral: análise a longo prazo”, agraciada em 1998 com o Prêmio Godoy Moreira, da Associação Paulista de Medicina. Tornou-se professor adjunto da FCMSCSP, membro da Comissão de Pós-Graduação em Ciências da Saúde e orientador de mestrado e doutorado, além de chefe de clínica do DOT do Hospital Central e colaborador sênior do Grupo de Ortopedia Pediátrica. Os alunos o escolheram professor homenageado em 13 turmas de graduação e paraninfo da 38ª turma.


Liderança associativa

Na SBOT, integrou a Comissão de Educação Continuada (CEC) em 1991 e 1992 e a Comissão de Ensino e Treinamento (CET) de 1993 a 1996. Na diretoria, foi secretário-geral por duas gestões e alcançou a presidência em 2010. Em 2013, presidiu a Comissão Científica do 45º CBOT, em Curitiba.

Em 1998, lavrou a ata de fundação da Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica (SBOP), que presidiu na gestão 1999-2000. Em 2004 criou, com Jamil Faissal, o TROIA (Traumatologia Ortopédica Infantil – Atualização). Em 2021, integrou a primeira diretoria da Academia Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (ABOT), como acadêmico fundador da Cadeira 29, cujo patrono é Orlando Pinto de Souza.


Obra científica

Sua produção é notável: 86 artigos, 66 capítulos e 7 livros. Orientou 29 mestrados e 9 doutorados e participou de 115 bancas de mestrado, 50 de doutorado e 109 de qualificação e outros concursos. Esteve presente em mais de 1.050 eventos científicos e organizou 40 deles. Foi membro do Conselho Editorial da RBO desde 1999 e editor associado da Acta Ortopédica Brasileira. Recebeu mais de 126 títulos e prêmios, entre eles o de Gran Comendador da SLAOT, em 2003, e o Prêmio Nicolás Andry, em 2018, concedido por livre escolha de seus pares da SBOT.

Formou, ainda, inúmeros discípulos que hoje participam da formação de profissionais de saúde em diversas regiões do país, talvez o seu legado mais duradouro.


O inventor

Santili colocou sua engenhosidade a serviço do dia a dia do ortopedista. Desenvolveu, com José Carlos Prado e Pedro Péricles Baptista, uma mesa de gesso pediátrica em duralumínio. Idealizou o gancho de tração acetabular “rabo de escorpião” (scorpion tail), para uso intraoperatório em fraturas e na reorientação acetabular após osteotomia. Criou, com Miguel Akkari, a placa trocantérica “tipo bumerangue”, para osteossínteses após osteotomias subtrocantéricas. Concebeu hastes intramedulares telescopadas e extensíveis para ossos frágeis e parafusos canulados de rosca total para epifisiodeses temporárias (crescimento guiado) ou definitivas (equalização de membros), patenteados com o nome PhysiCS.


A despedida

Resumir o currículo de Cláudio Santili é fácil. Difícil será aceitar sua ausência nas múltiplas frentes da Ortopedia brasileira, especialmente na diretoria da ABOT, da qual era presidente eleito para 2027 e onde contribuía com opiniões lúcidas e bem fundamentadas.

Santili faleceu subitamente na noite de 5 de outubro de 2026, vítima de infarto agudo do miocárdio, a poucos dias de completar 74 anos. Deixa a família e uma legião de amigos, alunos, admiradores e pacientes.

Sua partida convida a uma reflexão. Muitos de nós, na mesma faixa etária, vivemos sob a ameaça silenciosa da aterosclerose. Temos feito revisões periódicas? Praticamos atividade física, cuidamos da alimentação, sabemos administrar o estresse?

Esta foi a última lição do Professor Santili, mestre até o fim: cuide-se.

Descanse em paz, querido amigo.