Uma das marcas dos grandes professores é que seus ensinamentos continuam fazendo sentido muito depois de terem sido transmitidos. 

A despedida do professor Cláudio Santili é especialmente difícil para quem teve o privilégio de conviver com ele. Depois de tantas décadas de amizade e aprendizado, é impossível recordar sua trajetória sem pensar nas pessoas que ajudou a formar e na influência que exerceu sobre todos nós. 

Santili dedicou grande parte de sua vida à Santa Casa de São Paulo, onde estudou, fez residência e ocupou diferentes funções de liderança. Foi um dos idealizadores da Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica, presidiu a entidade e participou da formação de gerações de especialistas. Também presidiu a SBOT, em 2010, e sempre defendeu a importância de uma sociedade médica organizada e atuante. 

Mas seu currículo, por mais expressivo que seja, conta apenas parte da história. Quem conviveu com Santili conheceu um professor exigente, firme em suas convicções e profundamente generoso. Ele acreditava que a formação ética e moral era tão importante quanto o conhecimento técnico e fazia questão de demonstrar isso no cotidiano. 

Lembro-me de vê-lo repreender um residente por uma atitude inadequada e, pouco depois, recebê-lo com imensa cordialidade em sua casa. Para Santili, ensinar também significava corrigir, reconhecer erros e oferecer a oportunidade de melhorar. Sua autoridade vinha da coerência entre aquilo que defendia e a maneira como tratava as pessoas. 

Havia também o amigo que gostava de reunir pessoas, ouvir blues e rock e contar histórias. Sua casa estava sempre aberta, e sua capacidade de acolher fazia com que colegas, alunos e amigos se sentissem parte da família. 

Depois de décadas de convivência, aprendi a compreender atitudes que, quando mais jovem, nem sempre entendia. Uma das marcas dos grandes professores é que seus ensinamentos continuam fazendo sentido muito depois de terem sido transmitidos. 

Neste momento de tristeza, deixo meu carinho à família, aos amigos e a todos que tiveram a oportunidade de aprender com Santili. A Ortopedia brasileira perde uma de suas grandes referências. Eu me despeço de um amigo e de um exemplo que continuará presente na maneira como procuro exercer a medicina e me relacionar com as pessoas.