A ortopedia entra em campo com a Seleção Brasileira
Médico da Seleção Brasileira, Rodrigo Lasmar compartilha bastidores, desafios e a rotina de cuidado com atletas de alto rendimento
A relação de Rodrigo Lasmar com o futebol começou muito antes da medicina. Filho do médico Neylor Lasmar, que teve longa trajetória ligada ao futebol brasileiro e à Seleção Brasileira, ele cresceu acompanhando de perto o ambiente do esporte profissional. Em 1986, aos 14 anos, viveu uma experiência que acabaria influenciando diretamente sua escolha pela ortopedia e pela medicina esportiva.
Durante a preparação da Seleção para a Copa do Mundo do México, acompanhou parte da rotina da delegação brasileira e observou de perto a recuperação de Zico, que tentava voltar a tempo de disputar o torneio após uma grave lesão no joelho. O pai integrava a comissão técnica brasileira naquele período.
“Naquela época nem existia fisioterapeuta junto à delegação. Eram os médicos, preparadores físicos e massagistas. Eu via o Zico passar horas fazendo fortalecimento e tentando voltar a tempo da Copa. Aquilo foi decisivo para a minha escolha pela ortopedia e pela medicina esportiva”, relembra.
Formado em medicina pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), com especialização em ortopedia e trajetória consolidada na medicina esportiva, Lasmar construiu praticamente toda a carreira ligada ao futebol de alto rendimento. Há mais de duas décadas atua junto à Seleção Brasileira e também mantém trabalho de longa data no Atlético-MG.
Desafios
Segundo ele, o trabalho na Seleção vai muito além das convocações e dos períodos de competição. Existe um acompanhamento contínuo dos atletas considerados convocáveis, com monitoramento físico, análise de carga de jogos, contato frequente com departamentos médicos de clubes e reuniões semanais com a comissão técnica.
O desafio aumenta porque os jogadores chegam à Seleção em momentos completamente diferentes da temporada. Enquanto atletas do futebol brasileiro ainda estão no início do calendário competitivo, muitos jogadores que atuam na Europa já acumulam meses seguidos de jogos em alta intensidade.
Para lidar com isso, a equipe utiliza dados de GPS, relatórios físicos e informações compartilhadas pelos clubes para individualizar o acompanhamento de cada atleta. Segundo Lasmar, hoje é possível monitorar distância percorrida, intensidade, velocidade máxima, volume de treino e sinais de desgaste físico praticamente em tempo real.
“Quando um jogador deixa de atuar, a gente imediatamente procura entender o motivo. Muitas vezes recebemos exames, discutimos o caso com o clube e acompanhamos o tratamento à distância. Em alguns casos, o atleta pede nosso suporte e até vem ao Brasil para tratar ou operar”, explica.
Além do acompanhamento físico, a integração entre diferentes áreas passou a ocupar papel central dentro da medicina esportiva. Segundo ele, o trabalho envolve médicos, fisiologistas, preparação física, psicologia e outros profissionais que participam diretamente da rotina dos atletas.
“Uma Copa do Mundo é um ambiente de pressão extrema. Não adianta cuidar só da lesão muscular ou da parte física. A saúde mental também interfere diretamente na performance, e o departamento médico precisa olhar tudo isso de forma integrada”, afirma.
Ao longo de 25 anos de atuação junto à Seleção Canarinha, Lasmar trabalhou com diferentes gerações de treinadores e acompanhou mudanças importantes na forma de preparação das equipes. Atualmente, vive a experiência de atuar ao lado de Carlo Ancelotti, primeiro estrangeiro a comandar a Seleção em muitas décadas.
Segundo ele, Ancelotti valoriza bastante a atuação do departamento médico e entende com clareza os limites físicos dos atletas, algo que também relaciona à experiência do treinador como ex-jogador profissional.
Transformações na Ortopedia
Lasmar também acompanhou de perto a transformação da medicina esportiva nas últimas décadas. Exames de imagem mais precisos, técnicas cirúrgicas menos invasivas e protocolos modernos de recuperação mudaram completamente a forma de tratar atletas de alto rendimento e reduziram significativamente o tempo de retorno ao esporte.
“Hoje nós conseguimos tratar lesões que antigamente eram praticamente incapacitantes. Em muitos casos, o atleta consegue voltar mais rápido, com mais segurança e em um nível de performance que antes era impensável”, resume.
Ciência, ética e credibilidade
Para os jovens médicos que desejam seguir carreira no esporte, ele evita fórmulas prontas. Diz que o caminho exige atualização constante, equilíbrio emocional e capacidade de trabalhar sob pressão — especialmente em um ambiente onde dias ou semanas de diferença no retorno de um atleta podem impactar temporadas inteiras.
“Uma ou duas semanas fazem muita diferença no esporte de alto rendimento. Por isso o médico precisa estar sempre atualizado, mas sem cair em modismos ou soluções milagrosas. No fim, a credibilidade é construída ao longo de muitos anos, baseada em ética, ciência e transparência.”