"De onde vem o baião? Vem de baixo do barro do chão

Onde a perna se move, o suor é a lei, o destino é a mão

No balanço da rede, no jogo da vida, eu já me cansei

De ver tanta força onde o brilho da arte era tudo o que eu sei"

Gilberto Gil


Estava eu aqui refletindo sobre os novos tempos, enquanto observava na TV, num domingo desses, a movimentação frenética desses jogadores que hoje ganham a vida e a fama correndo atrás da bola. Valem fortunas!

Antes, a gente via o Zico, Zenon, Dener, Bebeto e o Sócrates, ou mais recentemente o Marcelinho Carioca e o Edilson "Capetinha", todos craques e pode-se dizer franzinos e sem músculos para os padrões de hoje.  Eles tinham uma leveza e refinamento na aplicação da força que pareciam desafiar as leis da física. Mudavam de direção com a naturalidade de um bando de andorinhas revoando errantes, no final das tardes, e as habilidades sobressaiam ante o vigor muscular bruto. Será que eles se lesionavam tanto?

Tenho minhas dúvidas. Não me lembro de tantas ocorrências. O treino coletivo era um racha entre titulares e reservas, após uns  minutos de “aquecimento”.

Naquele tempo, antes da virada do milênio, a medicina esportiva ainda engatinhava em protocolos e pesquisas específicas, mas os corpos dos atletas pareciam mais elásticos e flexíveis. 

Hoje, de 2000 para cá, entramos na era da robotização do comportamento e do desempenho. O jogador é “pescado” lá na escolinha aos 7 ou 8 anos e virou um autômato na aquisição de músculos. É tanta malhação, tanto fortalecimento e intensidade de carga, tanta busca e investimento no ganho de massa e força para a explosão que a musculatura parece viver num estado permanente de retração hipertrófica. Aí, no primeiro “sprint” ou naquela frenagem com desaceleração brusca para mudar o rumo da história, a corda arrebenta. É a rotura, muitas vezes audível por quem está próximo e diagnosticada à distância, até por leigos!

O “músculo posterior da coxa”, coitado, virou o vilão da vez.

O futebol é na essência, uma arte! No entanto, hoje o estádio é chamado de Arena e os jogadores são tratados como gladiadores na luta pela glória. Alguma coisa deve estar errada.

A gente observa esses jovens se preparando fisicamente e os vê cercados por um aparato enorme de máquinas e um "Doutor Zé Ninguém" do esporte, super entendido em transcrever, repassar protocolos técnicos, mas que parece ter esquecido que o fundamento do esporte é o movimento livre e fluido no equilíbrio harmônico entre agonistas e antagonistas, contrações e alongamentos. 

A lesão virou uma coisa tão comum, tão banalizada pela alta frequência que em uma frase pode-se resumir o problema “- Hoje até uma criança está fazendo diagnóstico da lesão do posterior da coxa".

Tanto a nossa profissão como a arte e desempenho de um esporte se aprendem é com a "mão na massa", com treino e sensibilidade do toque, na observação atenta, no olhar que enxerga, e não apenas seguindo guias estereotipados em manuais de condicionamento físico. Hipócrates já sabia que o equilíbrio é a chave do bom senso e do sucesso, mas parece que nos esquecemos disso. Tem que haver balanço e sincronismo entre as forças musculares agonistas e antagonistas

Moral da estória: estamos todos indo para o mundo desvairado da hipertrofia a todo custo, onde a força bruta atrapalha a habilidade e o resultado é esse “estalo seco” que interrompe um sonho de uma carreira de sucesso.

Que pena! Onde foi parar a ginga?