Ao longo dos últimos 20 anos, Dr. Marcos Katchburian passou a integrar o conselho da Sociedade Britânica de Ortopedia Pediátrica e participou de atividades ligadas à educação médica e à organização regional da especialidade
Formado em Londres, Marcos Katchburian voltou ao Brasil para fazer residência e depois retornou ao Reino Unido, onde estruturou um serviço regional de ortopedia pediátrica
A trajetória de Marcos Katchburian na ortopedia passou por Brasil e Inglaterra — e exigiu duas residências médicas em sistemas de saúde bastante diferentes. Nascido em São Paulo e formado em medicina no London Hospital Medical College, da Universidade de Londres, em 1987, ele começou a carreira na Inglaterra antes de decidir voltar ao Brasil para fazer residência em ortopedia na Escola Paulista de Medicina.
A volta exigiu adaptação. Antes de iniciar a residência, precisou revalidar o diploma pela USP, reaprender os termos médicos em português e se acostumar à realidade do sistema de saúde brasileiro. “Um dos maiores desafios foi a prova de moléstias infecciosas para revalidar o diploma. As doenças mais comuns no Brasil eram bastante diferentes daquelas encontradas na Inglaterra”, relembra.
Depois da residência, voltou para Londres para se casar com a esposa, inglesa. Precisou então fazer uma nova residência médica no Reino Unido, já que o diploma brasileiro não tinha reconhecimento automático no país — da mesma forma que o diploma inglês precisou ser revalidado no Brasil anos antes.
“No fim, fazer duas residências diferentes só trouxe benefícios profissionais”, afirma.
Após concluir a formação na Inglaterra, Katchburian fez especializações em cirurgia da mão e ortopedia pediátrica no Reino Unido e na França. Mais tarde, estruturou um serviço regional de ortopedia pediátrica em Kent, no sul da Inglaterra, trabalho que considera o principal projeto da carreira.
“Comecei sozinho, como o único ortopedista pediátrico da região. Hoje temos uma equipe com cinco cirurgiões ortopédicos, fisioterapeutas, enfermeiras e terapeutas ocupacionais recebendo pacientes de toda a região”, conta.
Ao longo dos últimos 20 anos, também passou a integrar o conselho da Sociedade Britânica de Ortopedia Pediátrica e participou de atividades ligadas à educação médica e à organização regional da especialidade.
O interesse pela ortopedia pediátrica e pela cirurgia da mão caminhou junto desde o início da formação. Segundo ele, as duas áreas compartilham características parecidas que exigem precisão técnica e têm uma parte diagnóstica que sempre chamou sua atenção. Hoje, já com a carreira consolidada, trabalha principalmente com cirurgias do membro superior em crianças com paralisia cerebral.
Ao comparar os sistemas de saúde dos países onde trabalhou, Katchburian destaca principalmente a abrangência do sistema público britânico. Segundo ele, apesar das dificuldades enfrentadas pelo NHS, existe uma confiança da população de que o atendimento estará disponível quando necessário. “Eu tenho plena confiança de que meus familiares sempre terão acesso a um excelente padrão de atendimento”, afirma.
Ao falar da formação médica brasileira, faz elogios diretos à experiência na Escola Paulista de Medicina. Para ele, médicos bem formados no Brasil conseguem atuar em qualquer lugar do mundo. O problema, observa, está menos na capacidade dos profissionais e mais na diferença de qualidade entre os serviços de formação. “A formação que recebi na Escola Paulista foi fantástica. Qualquer médico formado em uma faculdade de alto nível e que faz uma boa residência no Brasil tem condições de trabalhar em qualquer lugar”, diz.
Depois de quase 40 anos de profissão, Katchburian diz que aprendeu muito observando outros médicos e analisando os próprios resultados ao longo da carreira. “As duas coisas mais importantes foram colocar o paciente sempre em primeiro lugar e reconhecer claramente quando não se deve operar”, resume.
Mesmo vivendo há décadas na Inglaterra, ele diz nunca ter deixado de se sentir brasileiro. Continua acompanhando futebol — é santista desde a época de Pelé — e mantém hábitos brasileiros dentro de casa, como churrasco, feijoada e reuniões com amigos. “Minha família tem origem armênia e italiana, minha esposa é inglesa e eu sou brasileiro. No fim, virou uma verdadeira salada”, brinca.
Para os jovens ortopedistas interessados em trabalhar fora do Brasil, o principal conselho é buscar experiências internacionais sempre que possível. “Sempre há algo novo para aprender. É fundamental entender que existem diferentes maneiras de abordar um mesmo problema.”