Falar desse assunto é delicado... é sobre os chatos! Titubeei, mas depois que soube que Luís Fernando Veríssimo, Drummond, Millôr Fernandes, Ziraldo e Carlos Eduardo Leão já desbravaram este assunto com ironia e elegância, me encorajei!
Como dizem os juristas: "mister que se diga": qualquer semelhança será mera coincidência. Portanto, meus amigos e minhas amigas leitoras, não falo de ninguém!
Eu, sinceramente, acredito que a chatice é um patrimônio imaterial da humanidade. A ala dos chatos, convenhamos, está cada vez mais diversificada.
Se um dia a Unesco resolver catalogar, o planeta não vai ter servidor suficiente para guardar tanta variedade.
Arrisquei classificar alguns. E você fique à vontade para acrescentar outros!
Comecemos pelo clássico: o chato raiz, o que fala mais que a boca.
Ele não respira. Ele não pausa. Ele dispara um monólogo contínuo. Algo como locutor de leilão em dia inspirado. Você tenta colocar uma palavra, um gesto, um "pois é"... impossível. Ele segue firme, como se a língua tivesse vida própria, atropelando o próprio eco.
Logo ao lado, encontramos o chato professor de Deus, o especialista em tudo.
Esse é bem conhecido e conhece de tudo. De foguete a prisão de ventre, tem uma opinião formada, e explica!
É aquele sujeito que, em cinco minutos, expõe desde a origem do cosmos até a maneira correta de descascar manga.
Você menciona uma dor no ombro; ele já tem três diagnósticos, indica o médico amigo dele e já sabe o que ele vai fazer na sua cirurgia!
Se você é médico, ele ensina cirurgia.
Se você é piloto, ele explica turbulência.
Se você é sommelier, ele diz que "vinho bom é o que não amarra a boca".
Ah!... e ele corrige tudo: seu português, seu gosto musical, sua opinião política.
Se pudesse, corrigiria até as falas de Shakespeare:
"Não é ser ou não ser, é ser com consciência da sua jornada."
Mas uma coisa é admirável nesse tipo: a segurança com que ele afirma bobagens é de fazer inveja!
Pouco mais adiante, encontra-se o chato comparador, um competidor nato:
Você menciona um incômodo; ele viveu uma catástrofe.
Você fala de um atraso; ele enfrentou uma epopeia.
Você diz: "Dormir mal."
Ele responde: "Pior eu, que não durmo desde agosto."
Você comenta: "Tô cansado."
Ele rebate: "Cansado estou eu, que tenho TDAH, gastrite emocional e uma energia que ninguém acompanha."
Esse disputa até sofrimento.
Com ele, qualquer conversa vira UFC emocional.
Você sai derrotado, exausto, e ainda agradece.
Há o chato do desabafo eterno.
Ele não conversa, ele despeja.
Você dá um "bom dia" e ele devolve com um relatório emocional de 14 páginas, dois anexos e um PDF de mágoas desde 2013.
Há alguns anos surgiu no Brasil o chato político!
Tudo é culpa do Lula ou do Bolsonaro! ...e aí de você se falar bem ou mal de um ou de outro! Se for "de centro", então, corre até o risco de acabar a amizade!
E o chato que pede opinião... mas só aceita se for a dele.
Você dá sugestões, ele refuta todas e termina com:
"É... acho que vou fazer do meu jeito mesmo."
Mas nenhum... absolutamente nenhum, supera o chato ostentador, o que vive competindo com o próprio reflexo.
Está sempre num nível de importância maior que o resto da humanidade e precisa te lembrar o quanto é superior.
Ele fala de si mesmo como se fosse a capa de uma revista.
Ele cita lugares onde esteve; às vezes esteve mesmo, às vezes foi só no Google Street View.
Fala "em Dubai", "em Genebra", "quando fui para Aspen", sempre no singular, como se tivesse sido convidado pessoalmente pelo prefeito de cada cidade.
Geralmente adora plateia. Quanto maior a roda de conversa, mais se empompa!
Esse tipo é fácil de identificar no Instagram: posta foto do volante do carro com a marca famosa e a frase: "Mais um dia de luta."
E agora, prepare-se para o chato digital, ou chato virtual, também conhecido como "chato 5G", uma nova espécie que a evolução surpreendentemente permitiu. Ele só existe com o celular na mão!
Manda áudio de 6 minutos explicando o que cabia em 8 segundos. Geralmente o áudio começa dizendo "é rapidinho".
Escreve "oi..." e fica esperando você puxar o assunto.
Especialista em sequência de mensagens sem contexto ("Oi..." / "???" / "Você morreu?") e em "textões"!
Manda mensagem no WhatsApp e, se você não responde em 30 segundos, liga.
E se você não atende, manda áudio:
"Eu sei que você viu."
Costuma ligar por vídeo nas horas mais inconvenientes, sem avisar.
Ele te vigia como se fosse administrador do seu cotidiano.
Te adiciona em grupo de investimento, oração, rifas e corridas de rua; sendo que você nunca correu nem de cachorro.
No fim das contas, talvez a chatice seja apenas um excesso mal administrado: de ansiedade, de vaidade, de carência, de necessidade de ser visto.
O planeta não seria habitável sem eles. Sem eles, o mundo seria muito monótono e, provavelmente sem graça.
A gente precisa dessa fauna para lembrar por que terapia, vinho e viagens foram inventados.
Confesso: conviver com chatos até inspira.
Se não inspira paciência...
inspira crônica.
E, cá entre nós: o incômodo não é a chatice alheia, mas o medo silencioso de reconhecê-la em nós.
É tanta chatice que, se a gente não rir, vira um chato também.