Professor Osny Salomão foi eleito presidente da SBOT para a gestão 1993-1994, primeiro cirurgião de tornozelo e pé a exercer o cargo
Falaremos aqui de um colega por tantos tão querido, nosso ex-presidente da SBOT Professor Osny Salomão.
Filho de pai alfaiate sírio e de mãe descendente de italianos, nasceu em 10 de novembro de 1935, na cidade de Orlândia, interior de São Paulo. Graduou-se na terceira turma da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (FMUSP-RP) em 1959.
Em 6 de janeiro de 1960, foi escolhido como bolsista-residente no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, seguido de mais um ano de residência no Pavilhão Fernandinho na Santa Casa de São Paulo.
No ano de 1961, por indicação do Professor Flavio Pires de Camargo, foi convidado pelo Professor Francisco Elias de Godoy Moreira para integrar o quadro de médicos-assistentes como auxiliar de ensino do Instituto de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP.
A partir de 1964, ajudou a compor o Grupo de Afecções do Pé do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP, chefiado à época pelo Professor Manlio Mario Marco Napoli.
Contou o Prof. Osny em entrevista: “O Professor Napoli assistia a alguns grupos especializados, de maneira extra. Por volta de 1964, nos reuníamos para debater os problemas e tratamento dos pés às sextas-feiras, no próprio hospital (IOT HCFMUSP). Depois que o Napoli construiu uma edícula em seu consultório, passamos a nos reunir lá e, oficialmente, fundamos o Clube do Pé. Poucas pessoas se interessavam pelos pés e tornozelos; a grande parte dos ortopedistas se aprofundava na coluna. Por este motivo, não havia muita literatura sobre o tema. O pé era renegado, tratado apenas com palmilha ou raras cirurgias. Não atraía muita gente. É uma especialidade difícil, um membro complexo que sustenta todo o corpo. No Clube do Pé, além de leitura de artigos, estudávamos casos. Levávamos pacientes e discutíamos o diagnóstico e tratamento. E com certeza isso ajudou a valorizar a especialidade. Com o Clube do Pé, passou-se a despertar o interesse de outros médicos em pés e tornozelos”.
No ano de 1972, realizou estágio clínico-cirúrgico de especialização no Royal Orthopaedic Hospital em Londres, Inglaterra. Ainda em 1972, foi aprovado pela Banca em defesa da tese de doutoramento na FMUSP, com o estudo intitulado “Osteomia do calcâneo como tratamento complementar do Pé Equino Varo Congênito - Técnica de Dwyer”.
A partir de 1973, o Departamento de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP sofreu modificações, quando foram criados, além dos grupos de especialidades, os Grupos Gerais de Meninos, Meninas, Mulheres e Homens. No período de 1973 a 1986, Prof. Osny passou pela Chefia de todos os quatro Grupos, contribuindo para a formação de médicos recém- graduados de todo Brasil e América Latina, com seus egressos tornando-se líderes e representantes do IOT HCFMUSP em suas regiões e países.
No ano de 1975, fundou, juntamente com o Professor Napoli, a Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé (ABTPé), importante marco para o desenvolvimento da especialidade no Brasil, iniciativa pioneira dentro da Ortopedia Brasileira. Relata o professor sobre o assunto: “A Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé - ABTPé surgiu depois do Clube do Pé, durante uma reunião da Associação Paulista de Medicina. Noventa e nove médicos estavam na reunião e se tornaram membros fundadores da Associação. Naquele momento, foi formada a primeira diretoria, que teve o Napoli como presidente e eu como secretário. Nosso maior objetivo naquele momento era o estudo das patologias do pé e a padronização das nomenclaturas. O primeiro Congresso da ABTPé foi realizado em 1977, em parceria com a SBOT e com a SLAOT - Sociedade Latinoamericana de Ortopedia e Traumatologia. O evento foi realizado no Rio de Janeiro e, pela primeira vez, pudemos falar como especialidade. Daquele momento para cá, a Associação só evoluiu e, hoje, se tornou mundialmente conhecida e respeitada. Trabalhamos sempre com seriedade e honestidade e, com isso, conseguimos o crescimento”.
Após a eleição, em 1980 assumiu a presidência da Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé para a gestão 1980 a 1983, período no qual incentivou as reuniões do Clube do Pé, permitindo maior integração dos ortopedistas com maior experiência no tratamento desta área anatômica, de todo o Brasil, através de discussão de casos, aulas e apresentação de artigos científicos relacionados.
No ano de 1984, após concurso público, recebeu o título de Professor Livre-Docente do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP, com a tese intitulada “Pé convexo por tálus vertical congênito”.
Assumiu a chefia do Grupo de Tornozelo e Pé do Instituto de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP em 1984, dando continuidade à obra do Prof. Manlio Mario Marco Napoli, estabelecendo novas técnicas de diagnóstico e tratamento cirúrgico na área do tornozelo e pé, através do incentivo à produção científica do Grupo, recebendo reconhecimento internacional pela contribuição acadêmica à especialidade.
Em 1988, tornou-se Professor Doutor da FMUSP, após novo concurso público.
No ano de 1991, foi membro fundador de número 15 do então comitê de Ortopedia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, o qual deu origem à atual Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica, SBOP.
Em 1993, foi eleito presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) para a gestão 1993-1994, primeiro cirurgião de tornozelo e pé a exercer o cargo. Sua grande contribuição à SBOT foi a aquisição de sede própria, com estrutura de anfiteatro para 250 pessoas, o que permitiu a realização de inúmeros cursos de especialidades para os membros da nossa sociedade.
Coordenou o núcleo de Tornozelo e Pé do Hospital Sírio-Libanês, também colaborando com sua projeção e prestígio internacional na área. Assim, reuniu as lideranças da América Latina e comandou a fundação da Federação Latino-Americana de Medicina e Cirurgia da Perna e Pé – FLAMeCIPP –, sendo o primeiro presidente da entidade entre os anos de 1998 e 2000, projetando a ABTPé na América Latina. Associação que, para ele, tinha e tem função primordial na educação continuada, valorização da especialidade e incentivo a novos membros: “A nova geração é espetacular. Todos protestam, discutem e argumentam. Não há dúvidas de que a Associação vai avançar cada vez mais”.
Em 2005, durante o Congresso Mundial de Tornozelo e Pé em Napoli, Itália, foi eleito presidente da International Federation of Foot and Ankle Societies – IFFAS, tendo sido o primeiro latino-americano a presidir a maior entidade representativa da especialidade no mundo. Exerceu este cargo no período de 2008-2011, consolidando o importante papel da IFFAS para o desenvolvimento e crescimento da especialidade de tornozelo e pé em todo o planeta; foi o Chairperson do terceiro Congresso Mundial de Tornozelo e Pé na Bahia, em 2008, trazendo para o Brasil o Congresso da IFFAS, realizado a cada três anos.
Atualmente, é Professor Emérito da Faculdade de Medicina da USP.
Com seu humor característico, com comentários pertinentes e de forma muitas vezes hilária, enriquecia e, por vezes, colocava fim às discussões sobre assuntos em reuniões da especialidade e Congressos, apresentando soluções científicas brilhantes, conquistando a simpatia e o respeito de muitos pares que tiveram e têm a sorte de seu convívio, dentro e fora do nosso país.
Uma de suas frases inesquecíveis, fazendo uma autocrítica sobre sua escrita, foi: “Quando escrevo algo, só duas pessoas são capazes de ler: eu e Deus; após 3 meses, só Deus!”.
Em entrevista, disse: “Minha infância foi muito feliz. Não foi rica, mas muito feliz. Sempre gostei de estudar e fui muito dedicado ao que eu fazia. Nunca pude me queixar da vida. Desde pequeno eu queria ser médico e ficava contando quantos anos tinha que estudar para me formar”.
Em seu consultório no bairro de Santo Amaro, São Paulo, atende exclusivamente pacientes com problemas nos pés e tornozelos: “O acesso à informação tornou o paciente mais atento aos tratamentos e cuidados. Em medicina trabalha-se muito, por isso, sempre digo aos meus netos e a todos: quem faz medicina tem que gostar de medicina, caso contrário, não será um médico completo!”.
Como todo homem de bem, sua família sempre foi muito importante como base para uma carreira tão profícua e vitoriosa. Casado com a professora de filosofia e história Marlene, eles tiveram quatro filhos: Anassandra, Anelise, Osny Filho e Vanessa. Deles, ganharam nove netos: Gabriella, Raphael, Veridiana, Rodrigo, Renato, Fernanda, Isabela, Giovana e Lorenzo. O Prof. Osny vê em dois de seus netos, que cursam medicina, a possibilidade da continuação de seu trabalho.
Como diz um ditado chinês: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”.
Obrigado, Professor Osny.