Jonas Salk e Albert Sabin: os cientistas que libertaram o mundo da poliomielite

Jonas Salk (à esq.) e Albert Sabin

A poliomielite (paralisia infantil) é uma doença infecciosa causada pelo poliovírus, um enterovírus que, em uma pequena porcentagem, alcança o SNC e destrói os neurônios motores da medula espinal. A transmissão ocorre principalmente pela via fecal-oral, através de água ou alimentos contaminados. Inicialmente, ele infecta células da orofaringe e do TGI. Após a multiplicação local, o vírus pode passar para a corrente sanguínea, provocando uma viremia.  Na maioria das pessoas, a resposta imunológica elimina o vírus nessa fase, e a infecção permanece assintomática.  Em uma pequena proporção, o vírus alcança o SNC, onde causa a infecção e destruição dos neurônios motores, especialmente aqueles localizados no corno anterior da medula espinal. O resultado é uma denervação muscular aguda, levando a fraqueza muscular, paralisia flácida, redução ou ausência dos reflexos, hipotonia e atrofia muscular subsequente.  Quando o comprometimento envolve os neurônios motores bulbares, podem ocorrer dificuldade para deglutir, falar e respirar, com alta mortalidade.  A doença acometia todas as classes sociais, dentre eles: Franklin Delano Roosevelt (presidente dos EUA), Mia Farrow (atriz), Francis Ford Coppola (diretor de cinema).

Antes da vacinação, hospitais mantinham enfermarias repletas de crianças com insuficiência respiratória dependentes dos chamados “pulmões de aço”, enquanto milhares de outras enfrentavam limitações motoras permanentes. O medo da poliomielite alterava hábitos familiares, restringia atividades sociais e marcava profundamente gerações inteiras. No Acervo de Livros Médicos Antigos e Raros, possuo diversos exemplares de livros de ortopedia dedicados exclusivamente à poliomielite, publicados nas décadas 30-40-50 do século passado.

A história da medicina registra poucos exemplos de impacto tão profundo sobre a saúde pública quanto o trabalho de Jonas Edward Salk e Albert Bruce Sabin, responsáveis pelo desenvolvimento das duas primeiras vacinas eficazes contra a poliomielite. 

Jonas Salk nasceu em 28 de outubro de 1914, na cidade de Nova York, Estados Unidos, filho de imigrantes judeus de origem russa. Formou-se em Medicina pela New York University e desenvolveu grande parte de sua carreira na University of Pittsburgh, onde liderou a equipe que criou a primeira vacina eficaz contra a poliomielite. Em 1955, sua vacina, composta por vírus inativados (mortos), foi aprovada após um dos maiores ensaios clínicos da história. Administrada por injeção, a vacina de Salk demonstrou elevada eficácia na prevenção da poliomielite paralítica e representou um marco na medicina preventiva.

Albert Sabin nasceu em 26 de agosto de 1906, na cidade de Białystok, então pertencente ao Império Russo e atualmente localizada na Polônia. Emigrou ainda jovem para os EUA, graduando-se em Medicina pela New York University. Desenvolveu a maior parte de sua carreira na University of Cincinnati, onde aperfeiçoou a vacina oral. Introduzida no início da década de 1960, sua vacina continha vírus vivos atenuados e era administrada por meio de gotas via oral. Além de proteger o indivíduo vacinado, a vacina de Sabin reduzia significativamente a circulação do vírus na comunidade, tornando-se uma ferramenta decisiva para as campanhas de imunização em massa e para a interrupção da transmissão da doença. Sabin optou por não patentear a sua descoberta – o que lhe tornaria milionário instantaneamente – ao contrário, estimulou o maior uso possível da sua vacina ao redor do mundo.  Desta forma, obteve reconhecimento global, tendo seu nome ligado a centenas de hospitais, instituições de saúde e de caridade. 

Sabin visitou o Brasil diversas vezes, recebeu dois títulos de professor Honoris Causa, um na USP e outro na Universidade de Maringá (PR). Foi também recebido por lideranças políticas e médicas, dentre eles Ivan Ferraretto, então diretor da AACD em São Paulo.  Em uma das visitas, Sabin conheceu a brasileira Heloisa Dunshee de Abranches. Os dois se casaram em abril de 1972. Heloisa acompanhou Sabin durante os últimos 21 anos de sua vida e, após a sua morte em 1993, criou nos Estados Unidos o Instituto Albert Sabin, dedicado ao financiamento de pesquisas e ao combate a doenças infecciosas. Ela  faleceu em Washington em 2017, aos 98 anos, e suas cinzas foram depositadas junto às do marido, no Cemitério Nacional de Arlington. 

Embora utilizem estratégias diferentes, as vacinas de Salk e Sabin são complementares. A vacina inativada (VIP ou IPV) oferece excelente proteção individual sem risco de causar poliomielite associada à vacinação. Já a vacina oral (VOP ou OPV) de Sabin foi fundamental para acelerar a eliminação da doença em diversos países, graças à sua facilidade de administração e à capacidade de induzir imunidade intestinal.

A introdução das vacinas transformou o nefasto cenário da poliomielite. Em poucas décadas, foi eliminada da maior parte do planeta, tornando-se uma doença restrita a poucos focos remanescentes. A perspectiva de uma população mundial livre do estigma da poliomielite representa uma das maiores vitórias da medicina moderna, demonstrando que a ciência, aliada a programas amplos de vacinação, pode erradicar doenças incapacitantes e preservar milhões de vidas. O trabalho de Jonas Salk e Albert Sabin permanece como um dos mais brilhantes exemplos de como a pesquisa científica pode modificar, de forma definitiva, a história da humanidade.