Entre o Brasil e a Suíça, a trajetória de Michael Simoni que uniu carreira e qualidade de vida

Dr. Michael Simoni em St. Moritz

Da escolha por uma área pouca explorada à medicina esportiva, o ortopedista construiu uma trajetória de referência em solo brasileiro, agora também consolidada em território suíço


Enquanto boa parte dos ortopedistas concentrava a atenção no joelho, Michael Simoni percebeu que a cirurgia do ombro crescia rapidamente nos Estados Unidos e ainda despertava pouco interesse no Brasil. Apostou nessa área durante a residência e, em 1992, passou três meses em Los Angeles acompanhando o trabalho de Harvard Ellman, um dos pioneiros da artroscopia do ombro e considerado até hoje por Simoni como um dos seus mentores. 

De volta ao Brasil, consolidou sua atuação na cirurgia do ombro e na traumatologia esportiva. Operou atletas como Zico, Jackie Silva, Mônica Rodrigues, Kleberson e Victor Belfort e, em 2000, assumiu o desafio de estruturar o departamento médico do Fluminense. Desse período, lembra de um esforço para profissionalizar as equipes, ampliar o espaço da fisioterapia e fortalecer a integração entre os profissionais envolvidos com o futebol.

Em 2019, mudou-se com a família para St. Gallen, na Suíça. A busca por mais segurança e a oportunidade de a filha estudar em uma universidade do país motivaram a decisão. Mas, mesmo vivendo na Europa, continua voltando ao Brasil duas ou três vezes por ano para atender pacientes e realizar cirurgias. Agora, após sete anos da mudança, recebeu, no início de agosto, a aprovação oficial do reconhecimento de seu diploma médico no país. Com a validação, também foi oficializado seu registro no conselho profissional suíço.

Simoni diz que a experiência internacional ampliou sua visão sobre os sistemas de saúde. Ele destaca a importância dada ao consentimento informado e a maior autonomia dos médicos suíços para escolher implantes e outros materiais durante os procedimentos, sem as limitações frequentemente impostas pelos diferentes modelos de financiamento da assistência.

Fora do centro cirúrgico, desenvolveu o hobby de tatuador, algo pouco comum entre médicos. Apaixonado por arte, aproveitou um período de maior disponibilidade na Europa para aprender a técnica e já fez cerca de cem tatuagens em amigos, pacientes e outras pessoas. "É, na verdade, um hobby puro e simples", define.

Ao falar sobre a evolução da cirurgia do ombro, Simoni aponta o aperfeiçoamento das técnicas minimamente invasivas, das artroplastias reversas e dos materiais como os principais avanços da última década. O desafio, porém, continua sendo tratar pacientes jovens com artrose que desejam manter uma vida fisicamente ativa. Também acompanha a chegada da inteligência artificial e os primeiros movimentos da cirurgia robótica na especialidade. Em relação à medicina regenerativa, porém, demonstra preocupação com produtos divulgados como soluções quase definitivas antes que existam evidências científicas consistentes.

Para os ortopedistas interessados em construir uma carreira internacional, o conselho é investir desde cedo em outro idioma, conhecer os processos de validação profissional e planejar a mudança com antecedência. 

Na Suíça, Simoni encontrou qualidade de vida e segurança, mas não se afastou das raízes. Continua acompanhando os jogos do time do coração, o Fluminense, mesmo quando o fuso horário empurra as partidas para a madrugada. Apesar da adaptação à vida europeia, ele fala do que sente saudades do Brasil, embora não veja possibilidade de voltar a morar no país. " É óbvio que eu amo o Brasil, o Rio de Janeiro, onde vivi 55 anos, mas o que mais sinto falta são as pessoas, os amigos, a família, os colegas de profissão, os encontros da Sociedade e os congressos, onde a gente via tanta gente. Mas acho que o Brasil chegou a um ponto em que passamos a normalizar coisas que não são normais. Não é normal precisar blindar um carro ou esconder o celular por medo de ser assaltado. Isso, para mim, do ponto de vista da minha vida como cidadão suíço e cidadão brasileiro, é inaceitável”.