Tudo Volta

Uma das coisas que sempre me intrigou na humanidade: a facilidade com que transforma convicções em modismos e modismos em convicções. 

Na minha juventude, o ovo era tratado como um atentado ao colesterol. Bastava alguém mencionar duas gemas no mesmo prato para surgir um especialista disposto a prever um futuro cardiovascular sombrio. Muita gente reduziu o consumo, mudou hábitos e passou a olhar para um simples café da manhã com certa desconfiança. Hoje, ovo é saúde, paixão dos fitness.


A manteiga também já foi condenada, absolvida, voltou a ser condenada e novamente recebeu perdão. O café já ocupou praticamente todas as posições possíveis entre vilão e aliado da saúde. 

Depois de algumas décadas observando essas mudanças, aprendi a desconfiar das certezas definitivas. 

Mas nada muda mais de opinião do que a moda. 

As calças são o melhor exemplo. 

Passei pela época da boca de sino. Depois vieram modelos mais largas, as cargo, as baggy. Em seguida, mais ajustadas. A cintura subiu, desceu, voltou a subir e tornou a descer. 

Quando finalmente entendíamos o que estava certo, alguém decidia que o certo era justamente o contrário.


Hoje vejo rapazes usando calças ajustadas, terminando acima do tornozelo. Minha avó dizia modelo “cano de espingarda”, acompanhadas de sapatos sem meia. Alguns modelos ainda trazem uma fivela suficientemente grande para garantir que ninguém deixe de identificar a marca. O brega virou cool! 

Os ternos também nunca facilitaram a vida de ninguém. 

Meu primeiro terno tinha aquele corte amplo, cheio de botões, que dominava os anos oitenta. O famoso estilo “jaquetão”. Eu me sentia elegante. Olhando as fotografias hoje, percebo que estava a poucos ajustes de integrar algum ministério do governo Sarney. 

Pouco tempo depois, aquilo deixou de ser elegante. Ganhou o rótulo de ser datado.


Vieram então os modelos de três botões. Fiz um. Disseram que afinavam a silhueta. 

Quando finalmente me acostumei com eles, decretaram que o correto eram dois botões. 

Fiz outro. 

Recentemente, notei que a lapela do meu terno novo estava mais larga do que as anteriores. 

Comentei com o alfaiate, que já havia feito vários ternos para mim. 

Ele respondeu com a serenidade de quem comunica um fato consumado: 

— Lapela estreita não se usa mais.


E assim descobri, mais uma vez, que eu estava desatualizado sem sequer ter sido avisado. 

As gravatas seguiram trajetória semelhante. 

Já usei das estreitas, das largas e das intermediárias. 

Houve uma época em que as de tricô pareciam representar o auge da elegância masculina. 

Durou menos do que muitos casamentos. 

E confesso que já desisti de tentar entender a lógica das tendências de vestuário. Justamente agora, graças às canetas emagrecedoras, que uma legião de pessoas finalmente conseguiu vestir números que não via há anos, a moda resolveu decretar que o elegante é usar roupas largas, folgadas e oversized. Depois de décadas tentando entrar na roupa, parece que agora a roupa é que deve sobrar.


Nem arrisco a exemplificar óculos. Dos panorâmicos estilos tela de televisão, aos redondinhos tipos Freud, já não sei mais o que é chic. 

E por falar em óculos, as mulheres também convivem com essas reviravoltas. 

Os cílios postiços, clássicos da jovem-guarda, voltaram com força total. 

Alguns são discretos. Outros dispensam apresentações. Tenho visto cada penacho sobre os olhos... 

Para os homens, os bigodes também reapareceram. 

Durante anos pareciam restritos a retratos antigos e fotografias de família. 

Agora voltaram triunfantes.

Do estilo bigodinho (aquela nesga de pelo, de 1cm, em cima do lábio superior) estilo Clark Gable; até os robustos Freddie Mercury. 

Enquanto isso, as barbas começam a perder espaço. Se for aquela desenhada a régua, é cafona. 

Já os cavanhaques atravessam um período de baixa popularidade, estão bem démodé. Mas aprendi a não fazer previsões. Talvez estejam apenas aguardando sua vez. 

E não são apenas as roupas, os cabelos ou os acessórios. 

Os discos de vinil praticamente desapareceram. Foram substituídos por tecnologias mais modernas, menores, mais práticas e mais eficientes. 

Mas bastou algum tempo passar para voltarem às salas de estar como objetos de desejo.


Começo a suspeitar que a moda não cria tantas novidades quanto imaginamos. Ela apenas administra períodos de esquecimento. 

Depois de certa idade, a gente para de correr atrás de todas as tendências. 

Não necessariamente por sabedoria. Por experiência. 

Porque, com tempo suficiente, quase tudo volta. 

A roupa guardada reaparece como tendência. 

O sapato esquecido ganha status de peça vintage. 

Aquilo que era motivo de piada vira referência de estilo. 

E eu confesso que isso me traz algum conforto. 

Afinal, se roupas antigas viram vintage, discos antigos viram objetos de desejo e carros antigos viram clássicos, começo a torcer para que a regra seja universal.