Cinco anos sem Márcio Ibrahim de Carvalho

Márcio Ibrahim na presidência da SBOT em 1975.

Entre os grandes nomes da ortopedia brasileira no século XX, poucos conseguiram reunir, com tamanha harmonia, liderança institucional, excelência científica, vocação docente e dimensão humana quanto o Doutor Márcio Ibrahim de Carvalho. Médico de sólida formação, espírito cosmopolita e visão extraordinariamente avançada para seu tempo, construiu uma trajetória que se confunde com a própria consolidação da ortopedia moderna no Brasil.

Nascido em São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais, em 28 de setembro de 1928, Márcio Ibrahim de Carvalho era filho de José Ibrahim de Carvalho e Maria da Glória Medeiros de Carvalho. Cresceu em um ambiente marcado pelo respeito ao conhecimento e pelo compromisso com o cuidado humano, influenciado especialmente pela figura paterna, médico de reconhecida dedicação. Desde cedo compreendeu a medicina não apenas como profissão, mas como missão de vida.

Graduou-se em 1952 pela Faculdade de Medicina da UFMG, instituição que, à época, já se destacava como um dos grandes centros formadores da medicina brasileira. Iniciou sua carreira na cirurgia geral, porém logo percebeu na ortopedia um campo capaz de unir técnica, raciocínio científico e, sobretudo, reabilitação humana. Via na especialidade a possibilidade concreta de devolver autonomia, mobilidade e dignidade aos pacientes — conceito que guiaria toda a sua atuação profissional.

Movido por um espírito inquieto e pela busca incessante do aprimoramento, partiu em 1954 para os Estados Unidos. Em 1955 graduou-se em Ortopedia na Escola de Pós-Graduação Médica da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia. Na sequência, por dois anos, aprofundou sua formação em Ciências Básicas aplicadas à Ortopedia na Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco, período em que também realizou residência médica em ortopedia. Essa experiência internacional foi decisiva para moldar sua visão moderna da especialidade, pautada pela integração entre ciência, ensino e assistência.

Foi também em São Francisco que conheceu Jane Bunte, companheira de toda a vida, com quem se casou em 1957. A união de ambos representou uma parceria sólida marcada pelo apoio mútuo, pela valorização da cultura e pelo compromisso com a educação. Dessa união nasceram quatro filhos: Márcio Luiz, Nanci, Teresa e André.

Ao retornar ao Brasil, trouxe consigo conhecimento ortopédico avançado e inovações na  organização hospitalar e formação médica. Em 1957 participou ativamente da estruturação do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, instituição na qual construiu uma das mais fecundas trajetórias de sua carreira. Ali exerceu intensa atividade assistencial e docente, formando gerações de ortopedistas que posteriormente ocupariam posições de destaque em todo o país. Sua atuação no hospital ultrapassou o campo estritamente médico: integrou, por três mandatos, o Conselho Técnico e o Conselho Diretor da instituição.

Sua liderança logo ultrapassaria os limites de Minas Gerais. Em 1960 foi aceito como membro da SBOT, tornando-se, naquele mesmo ano, presidente do Departamento Regional da entidade em Minas Gerais. O reconhecimento nacional consolidou-se em 1963, quando passou a integrar a Diretoria Nacional da SBOT.  O professor Márcio foi o presidente da SBOT no biênio 1975 a 1977, período marcado pelo fortalecimento institucional da especialidade e pela valorização do ensino médico estruturado.

Entre suas contribuições mais relevantes destaca-se sua atuação editorial e científica. Em 1967, com o apoio de Achilles Araújo, reiniciou a publicação da Revista Brasileira de Ortopedia (RBO), utilizando a estrutura da Universidade Federal de Minas Gerais para sua produção. Foi editor da revista durante cinco anos e membro do Conselho Editorial por quase três décadas, recebendo posteriormente o título de Editor Emérito. Sua dedicação à RBO foi fundamental para consolidar um espaço científico nacional de excelência, essencial para a difusão do conhecimento ortopédico brasileiro.

Seu compromisso com o ensino também deixou marcas profundas. Durante o CBOT de 1967, em Belo Horizonte, colaborou decisivamente para a criação da CET-SBOT. Na presidência dessa comissão, organizou em 1972 o primeiro exame para obtenção do título de especialista em ortopedia, iniciativa pioneira que elevou o rigor e a qualidade da formação profissional no país. O exame era realizado no Instituto Cultural Brasil–Estados Unidos (ICBEU), em Belo Horizonte, contando com o apoio da esposa Jane Bunte, então diretora da instituição.

A carreira de Márcio Ibrahim também foi marcada por intensa projeção internacional. Em 1966 integrou o grupo de ortopedistas brasileiros convidados pela Sociedade Britânica de Ortopedia para visitar serviços especializados no Reino Unido e palestrar no congresso anual realizado em Edimburgo, na Escócia. Em 1986 foi escolhido como um dos vinte delegados do programa americano Citizen Ambassador Program, participando de seminários em hospitais e centros acadêmicos chineses nas cidades de Nankin, Tianjin, Pequim, Shouzou e Xangai. Três anos depois, em 1989, foi eleito delegado brasileiro da SICOT, participando ativamente da organização científica de congressos internacionais em Seul, Alexandria, Izmir e Montreal.

Além da produção científica e da liderança institucional, destacou-se na organização de grandes eventos médicos. Presidiu, em 1981, o primeiro Congresso Brasileiro de Cirurgia do Quadril, em Salvador; em 1983, o III Congresso Nacional de Cirurgia do Pé e Tornozelo; e, em 1984, o XVI CBOT.

Ao longo da vida recebeu inúmeras homenagens e condecorações, reconhecimento natural de uma trajetória construída com competência, ética e espírito público. Entretanto, mais do que os títulos e distinções, permaneceu na memória de colegas, alunos e pacientes como um homem elegante no trato, generoso na transmissão do conhecimento e absolutamente comprometido com a dignidade da medicina.

Márcio Ibrahim de Carvalho pertence à geração de médicos que ajudaram a transformar a ortopedia brasileira em referência internacional. Foi, de fato, um homem à frente de seu tempo — não apenas pelo saber que acumulou, mas pela capacidade rara de enxergar na medicina um instrumento de progresso humano, científico e social.

Em 2019, tive a honra de homenageá-lo em Ouro Preto, MG, com a palestra magna “ Márcio Ibrahim é um garçom ? “ diante de uma platéia repleta de ex-residentes e admiradores. Afinal, ele desenvolvera a capacidade de servir a todos ao seu redor.  Em 2014 ele foi escolhido pelos seus pares para receber o Mérito Ortopédico Brasileiro Nicolas Andry. O professor Márcio faleceu em 2021.  A ortopedia brasileira prestou-lhe merecidas homenagens, incluindo a nominação do seu nome como Patrono da cadeira 20 da Academia Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (ABOT), hoje ocupada pelo Prof. Marco Antônio Percope de Andrade.