Prof. Camilo André Mércio Xavier
HOMENAGEM AOS EX-PRESIDENTES
Dr. Camilo André Mércio Xavier - Um mestre na ciência e na palavra: uma vida que ensina
A constituição da Ortopedia como especialidade médica autônoma resultou de um processo histórico gradual, estreitamente vinculado à evolução do ensino médico, da prática hospitalar e da organização universitária. Durante longo período, a Ortopedia permaneceu integrada à Cirurgia geral, compartilhando métodos, espaços e modelos formativos. Com a ampliação dos conhecimentos sobre o sistema músculo-esquelético — particularmente nos campos da biomecânica, da fisiopatologia óssea e do tratamento das deformidades e fraturas — tornou-se progressivamente evidente a necessidade de uma área especializada, dotada de identidade própria e saber específico.
No Brasil, esse movimento começou a se estruturar nas primeiras décadas do século XX, tendo como figura central o Dr. Luís Manuel de Rezende Puech (1884–1939), reconhecido como fundador da Ortopedia brasileira. Atuando no Rio de Janeiro, foi o principal articulador da especialidade, culminando na criação da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), em 1935, da qual foi o primeiro presidente. A partir dessa iniciativa, consolidou-se uma geração pioneira que, em diferentes regiões do país, criou centros de excelência em assistência, ensino e formação profissional, estabelecendo as bases da Ortopedia brasileira moderna.
Foi nesse contexto histórico que se deu a criação do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Fundada em 1952, a Faculdade encontrava-se em fase de estruturação de seus departamentos clínicos quando, em abril de 1958, foi criado o Departamento de Ortopedia e Traumatologia, por iniciativa do Professor José Paulo Marcondes de Souza, trazido da Escola Paulista de Medicina, instituição então já reconhecida por sua tradição na área.
Marcondes de Souza, cuja formação foi fortemente influenciada pela escola inglesa de Ortopedia — em especial após estágio no Nuffield Orthopaedic Centre da Universidade de Oxford — concebeu o novo Departamento segundo uma visão moderna da especialidade, articulando de forma indissociável assistência, ensino e pesquisa. Para viabilizar esse projeto, agregou ao Departamento dois docentes que se tornariam fundamentais: o Professor Fernando Ferreira Machado, transferido do Departamento de Morfologia, e, a partir de 1960, o Professor Camilo André Mércio Xavier. Esse grupo constituiu o núcleo fundador responsável pela consolidação da Ortopedia e Traumatologia na FMRP-USP.
Dr. Camilo André Mércio Xavier nasceu em 8 de fevereiro de 1927, em Ribeirão Preto. Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1952, retornando posteriormente à sua cidade natal. Seu ingresso na FMRP-USP ocorreu em momento decisivo, quando o Departamento ainda buscava afirmar sua identidade acadêmica e institucional.
Desde os primeiros anos, destacou-se não apenas pelo rigor científico, mas também por traços pessoais que marcariam de forma duradoura sua atuação universitária. Reconhecidamente calmo, ponderado e conciliador, exercia uma liderança serena, distinta do perfil então dominante entre muitos professores titulares da USP, frequentemente marcado por forte personalismo. Sua postura favorecia o diálogo, a construção de consensos e a estabilidade institucional, sendo recorrentemente chamado a exercer papel de mediação em momentos decisivos da vida departamental.
No plano acadêmico, construiu carreira sólida e contínua. Concluiu o doutorado em 1966, com tese experimental dedicada ao estudo do tecido ósseo e da cartilagem de crescimento. Em 1970, obteve a livre-docência, com trabalho sobre a incidência de fraturas na população de Ribeirão Preto, articulando investigação clínica e análise epidemiológica. Em 1983, foi aprovado em concurso para Professor Titular de Ortopedia e Traumatologia, coroando uma trajetória construída integralmente no âmbito da universidade pública.
Entre seus legados mais duradouros destaca-se o estímulo à integração entre a Medicina e a Bioengenharia. Teve papel central na criação do Laboratório de Bioengenharia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, espaço dedicado à pesquisa em biomecânica, biomateriais e estudo do sistema musculoesquelético. Essa iniciativa desdobrou-se na criação do Curso de Pós-Graduação Interunidades da USP, envolvendo a FMRP e a Escola de Engenharia de São Carlos, projeto pioneiro que exigiu visão institucional, capacidade de articulação e diálogo entre culturas acadêmicas distintas.
A atuação do Prof. Camilo André Mércio Xavier ultrapassou amplamente os limites de Ribeirão Preto, projetando-se de forma consistente no cenário nacional da Ortopedia brasileira. Foi presença constante e ativa nos principais congressos, jornadas e encontros científicos da especialidade, participando de maneira efetiva dos fóruns de debate e construção institucional que moldaram a Ortopedia no país ao longo da segunda metade do século XX. No âmbito da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, exerceu o cargo de Presidente da Comissão de Ensino e Treinamento, contribuindo decisivamente para a organização e o aprimoramento dos critérios de formação do ortopedista brasileiro. Posteriormente, foi eleito Presidente da SBOT, no biênio 1985–1986, exercendo liderança equilibrada, orientada ao fortalecimento institucional da Sociedade e à valorização do ensino e da ciência como fundamentos da especialidade.
Como reconhecimento maior de sua trajetória acadêmica e de sua contribuição à Ortopedia nacional, foi homenageado em 29 de setembro de 2022 como membro titular fundador da Academia Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (ABOT), ocupando a Cadeira nº 14, cujo patrono é o Professor José Paulo Marcondes de Souza. A designação possui forte significado simbólico, ao reunir, no âmbito da Academia, duas figuras centrais da formação da Ortopedia acadêmica em Ribeirão Preto e no Brasil.
Paralelamente à vida universitária, manteve atividade clínica contínua como cirurgião ortopedista, com especial interesse pelas doenças do quadril e pela ortopedia clínica e experimental, realizando estágios e visitas técnicas a centros do exterior. Após a aposentadoria, ocorrida em 1997, manteve-se intelectualmente ativo e socialmente engajado, dedicando-se, ao longo de vários anos, a um projeto de divulgação científica junto a alunos da rede pública de ensino, iniciativa que expressava sua convicção de que o conhecimento científico deveria ultrapassar os limites da universidade e alcançar a formação básica.
Nesse mesmo período, consolidou outra dimensão marcante de sua vida pública: a de escritor e poeta. Organizou e publicou parte significativa de sua produção literária em livros de poesia, entre os quais se destacam Tugas Cronológicas (1994), Alcance (1996) e Florilégio Poético (1997), obras que integram um conjunto amplo de poemas elaborados ao longo de décadas. Sua poesia revela sensibilidade humanista, reflexão sobre a experiência humana e atenção cuidadosa à linguagem.
Seu compromisso com a cultura manifestou-se também no plano institucional. Foi membro efetivo e Presidente da Academia Ribeirão-pretana de Letras (ARL), além de ter presidido a Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto (ALARP), exercendo papel ativo na promoção da literatura, da leitura e da vida cultural da cidade.
No plano pessoal, casou-se com Ilse Meirele Xavier, com quem constituiu família e teve quatro filhas. Mantém vínculo profundo com Ribeirão Preto, cidade a que permaneceu ligado ao longo de toda a vida.
A trajetória do Professor Camilo André Mércio Xavier confunde-se, assim, com a consolidação da Ortopedia acadêmica não apenas na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, mas também no cenário nacional. Sua contribuição excedeu a produção científica ou o exercício de cargos formais: foi a de um construtor institucional, cuja liderança serena, conciliadora e persistente deixou marca duradoura na Ortopedia brasileira, na universidade pública e na vida cultural de sua cidade.