Professor associado do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos, Mauricio Kfuri construiu uma carreira internacional sem perder suas origens. Sua trajetória começa no Brasil, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, onde se formou em um ambiente marcado pelo rigor acadêmico, pela pesquisa científica e pela valorização de princípios.
Foi ali que se aproximou da Ortopedia e Traumatologia, sob a influência do Prof. Cleber Paccola, mentor decisivo em sua formação. “Ele me ensinou o valor dos princípios de tratamento e sua aplicação a cada caso, mesmo em cenários em que não dispúnhamos de todas as tecnologias mais avançadas”, relembra. A experiência em Ribeirão Preto, então referência em técnicas de fixação de fraturas fundamentadas nos conceitos do Grupo AO, moldou uma forma de pensar a especialidade que acompanharia Kfuri ao longo de toda a carreira.
Essa base sólida abriu caminho para a inserção internacional. A partir do final dos anos 1990, Kfuri passou a atuar como educador e pesquisador, participando também de sociedades científicas e de conselhos da Fundação AO, ampliando seus contatos com especialistas de diferentes países. O interesse pelo trauma ortopédico e pela cirurgia do joelho levou-o a organizar, no Brasil, um evento educacional inédito: um simpósio internacional dedicado a todas as interfaces da cirurgia do joelho, integrando especialistas em trauma, cirurgia do esporte e artroplastia. Kfuri reforça que o Grupo de Cirurgia do Joelho e Trauma da FMRP-USP foi pioneiro em buscar uma visão integrada para o tratamento das patologias do joelho. Ele explica da seguinte forma: “Se um paciente procura o médico, sua intenção é que seu problema seja analisado e resolvido de acordo com a melhor evidência do tema. Se o médico em questão é alguém treinado a fazer um tipo específico de procedimento, é possível que o paciente receba como única opção de tratamento aquela com a qual o cirurgião se sente mais confortável a oferecer.” O conceito do simpósio foi justamente oferecer uma visão completa e complementar a todos os especialistas que atuam na área de cirurgia do joelho para que “todos vissem o joelho como um órgão onde integridade de cada estrutura - osso, meniscos, cartilagem e ligamentos - é essencial à função articular plena. Em muitas fraturas, por exemplo, pensar apenas na fixação óssea, sem considerar o reparo de meniscos e ligamentos, pode levar ao insucesso do tratamento.”
O simpósio internacional do joelho (ISKT) trouxe ao Brasil grandes nomes da ortopedia e traumatologia mundial. Foi neste contexto que surgiu a aproximação com Joseph Schatzker, autor da classificação mais utilizada para as fraturas do planalto tibial. Kfuri se recorda de que, quando conheceu o Prof. Schatzker, em Davos, em 2007, ainda não havia sistemas de classificação para as fraturas do planalto tibial baseados em imagens tridimensionais. Kfuri apresentou ao professor Schatzker um caso de fratura no quadrante póstero-lateral, tratada em Ribeirão Preto por via de acesso posterior, algo pouco comentado no início dos anos 2000. A conversa evoluiu para o projeto de revisão da classificação de Schatzker, que passou a ter um caráter tridimensional e funcional, facilitando a tomada de decisões em relação ao tratamento. “Ele me ensinou o verdadeiro sentido da palavra grandeza: estar aberto a ouvir ideias novas mesmo que venham de alguém desconhecido, e reconhecer o mérito de quem contribui”, afirma Kfuri. O trabalho levou quase uma década até ser publicado, pois ambos os autores fizeram questão de revisar cada detalhe da mensagem que desejavam entregar à comunidade ortopédica. Hoje, este trabalho é amplamente reconhecido e citado na literatura ortopédica.
Inicialmente planejada como um período sabático, a ida aos Estados Unidos acabou por se transformar em um projeto que já dura mais de uma década. Em Columbia, no Missouri, Kfuri passou a conciliar atividades clínicas, cirúrgicas e acadêmicas em um sistema de formação bastante diferente do brasileiro. “O maior desafio não é apenas o idioma, mas também a adaptação cultural e profissional”, observa. A formação ortopédica nos Estados Unidos é bastante diferente da brasileira. Além de ser um processo mais longo, ele também se baseia em competências específicas e em um processo de educação continuada, obrigatório para quem deseja obter e manter o título de especialista ao longo da carreira. Kfuri é atualmente o diretor da Residência Médica do seu departamento de ortopedia e está diretamente envolvido no processo de formação de futuros especialistas.
A experiência internacional também ampliou sua visão sobre ensino e pesquisa. Educador há três décadas, Kfuri defende que a formação médica deve ser contínua e certificada por órgãos competentes. Na opinião dele, participar de eventos acadêmicos a convite de membros da comunidade ortopédica, no Brasil e no exterior, continua sendo um privilégio. “Ensinar é a melhor forma de aprender. Quanto mais específico e aplicável é o conteúdo, maior o impacto na prática cotidiana”, resume.
Mesmo atuando no exterior, o vínculo com o Brasil segue com a participação em eventos, coautoria de trabalhos científicos e acompanhamento da produção científica nacional. Ele destaca o crescimento no número de publicações de impacto produzidas por ortopedistas brasileiros. “Deixamos de ser apenas usuários do conhecimento produzido no exterior para passar a produzir contribuições de impacto internacional.”
Ao falar de legado, a resposta se afasta de títulos e cargos. “O que diferencia uma profissão de um simples trabalho é o propósito”, diz. Para Kfuri, servir pacientes, alunos e instituições é parte essencial da trajetória. “A gratidão por cada momento é o caminho mais simples para a felicidade plena”, afirma. “A gratidão consolida o propósito, e permite que o que fizemos siga adiante multiplicado pelas mãos de quem nos acompanha.”