Akira* San

Akira Ishida, amigo leal e humano

                                                                Luz do Sol

                                                                   “Luz do Sol, que a folha traga e traduz,

                                                                   em verde novo, em folha, em graça, em 

                                                                   vida, em força, em luz”

                                                                                                   Caetano Veloso  

                                                                        *Akira, tradução: luz, brilhante*


Índio! Quem foi que lhe disse que estávamos preparados para, “pateticamente”, irmos nos despedir de você, naquela caixa horizontal horrível e frígida. Que constrangedor! Muitas caras amigas, chorando de verdade. O inconfundível e intragável cheiro daquelas florezinhas amanhecidas, emoldurando o seu corpo. Que raiva! Seria melhor o aroma vivo do seu vício. Sim, o maldito cigarro que levou muitos da nossa geração e tem ainda alguns encomendados. Aos poucos ele foi tragando você e assoprando-o, pulverizou o mundo com micropartículas de Akira. Melhor pensar assim que sucumbir em um conflito ou em uma depressão, devido à mescla de amor e ódio que nos confunde, nesses momentos. Tenho vontade de odiar o tudo, mas no todo, tudo me lembra de você, amigo querido!

Ali deitado, esticado e marmóreo, não tinha coisa alguma do homem emotivo e dócil que aprendemos a amar, e muito menos a dimensão do amigo leal e humano que é você, Akira. Ali, era apenas a casca! A “Yoroi” que nos fez admirá-lo e intentar adentrar o seu mundo para conhecê-lo melhor!

Bandido! Ao menos como forma de desabafo e para reafirmar o inconformismo meu, diante de sua súbita e inesperada despedida. Sendo também, e muito mais ainda, um grito de lamento como protesto contra mais esse escárnio que a vida nos trouxe.

A pancada que acabara de receber chegou às 20h32 do dia 26/12/2026, vinda do amigo Nilson, que me repassou a mensagem de um colega de turma dele, perguntando: é verdade?

Ninguém, a princípio, acreditou! Ele estava tão bem, quando conversamos pela última vez! 

Quem acreditaria? Fui para as redes sociais mais específicas, como SBOP, amigos da ortopedia, ABOT, etc...

Eu odiei fazer isso! Bem, o que eu estava procurando, afinal? Por acaso eu queria a confirmação de morte de um tremendo amigo meu? Não! Queria, mais que tudo, me frustrar na busca, mas não deu! Me chateei com você, meu irmão Akira! Você tinha partido sim. Por que você não cumpriu o que nos prometeu inúmeras vezes, e não mudou os seus hábitos? Principalmente, em relação àquele maldito, que vivia deslizando, apagado às vezes, entre os seus dedos. Um infeliz desafio entre bandidos, o inflamável por te seduzir e convencer mentirosamente de que “é só mais esse" e você, que inadvertido, se deixou tragar por esse inimigo, todas as vezes.

Sim, porque na intelectualidade e no racional, você era quase imbatível. Fiquei bravo, nervoso, aliás, muito revoltado com a imutabilidade do destino. Esse tal destino que é o outro pérfido bandido, nessa estória!

Não preciso falar sobre o seu currículo e de sua magnífica trajetória universitária, nem tampouco sobre sua força e expertise no judô. Você foi um gigante, um verdadeiro campeão! Falo de sua invejável habilidade de conquistar a confiança e simpatia das pessoas, com aparente, mas falsa insegurança. Sempre foi hábil nisso! Parecia frio, mas na verdade era um grande coração, amigo, emotivo e perspicaz. Um cara família, amoroso com a Cidinha e apaixonado pela filha Renata. Tão icônico e respeitado, quanto o Monte Fuji. Sempre ali, constante! Sempre igual!

Nos tempos mais recentes, com a sabedoria que lhe era peculiar e na bagagem a experiência milenar dos ancestrais, como a cauda de um dragão adentrava silenciosa e serpiginosamente os recintos de reuniões e assembleias, e posicionava-se com estratégia no fundo do anfiteatro. Com seu “algoz apagado desfilando entre os dedos”, sempre ele e o bandido, aguardavam taticamente o momento ideal de pedir a palavra. 

Impávido e imutável como um verdadeiro imperador japonês, com paciência e calma, pausadamente defendia seus conceitos e ilações com a tradição de uma cultura transcendental e o peso do seu conhecimento. Assim, tornou-se hábito nos encontros ortopédicos uma pausa para reflexões, um tempo de parar, pensar e ouvir . Esse “silêncio” ortopédico foi batizado pelo Tarcísio Eloy como: ”Momento Akira”! 

E assim, que seja ETERNIZADO!