A pressa que atrasa a vida 

“Temos relógios cada vez mais precisos, 

mas vivemos atrasados para o essencial.” 

Zygmunt Bauman


Dia destes, entrei no quarto decidido a pegar alguma coisa. Cheguei, olhei em volta... e esqueci. 

Voltei pra sala com a expressão de quem largou uma ideia em algum canto da casa, ou da vida. 

Minutos depois, lembrei. Fui de novo. Esqueci. De novo. 

Tenho vivido assim: com a sensação constante de estar a dois passos de alguma coisa importante... que escapa. Um nome, uma tarefa, uma 

palavra. Outro dia, esqueci o nome daquela atriz — sabe? Aquela que fez aquele filme com aquele ator que também fez outro filme. Isso. Essa mesma. 

Todos nós parecemos fadados a um cansaço, excesso de estímulos ou só essa mania moderna de viver no modo urgência. Essa pressa que fez tudo ser para ontem, e a obrigação imaginária que nada pode esperar, e ser imediatamente feito, decidido e respondido... A cabeça vai virando um feixe de pensamentos desalinhados. 

Estamos presos num looping de distrações. Você desbloqueia o celular para ver a previsão do tempo. Meia hora depois, já respondeu o grupo da família, viu um rosário de stories no instagram, olhou a última notícia da guerra (com direito de ler um meme: “...podiam me confirmar se vai ter guerra mundial mesmo, porque tô com umas coisas pra fazer, dependendo eu nem faço!”) e esqueceu se ia chover. 

Outro dia, fui pagar um boleto. Abri o app do banco. Apareceu uma mensagem no WhatsApp. Respondi. Um meme. Um link. Mais uma manchete alarmante do Trump. Uma oferta relâmpago de colchonete de yoga. Comprei. Nunca fiz yoga. 

O boleto? Venceu. E eu? Respirei fundo... de raiva. 

Vivemos cercados de pequenas urgências vestidas de importância. Cada notificação parece um grito. Cada vibração, uma convocação. A gente troca de tarefa antes de terminar a anterior, responde no automático. A vida virou um samba interrompido: a gente começa um verso, esquece a letra, troca a música. 

E assim vamos: empilhando tarefas inacabadas, vontades adiadas, ideias pela metade, promessas pausadas, pensamentos suspensos. Estamos esquecendo do essencial

De respirar como quem vive, não como quem corre desesperado sem nem saber porque. De ouvir uma música até o fim. De terminar uma frase, ou um carinho. 

Nosso cérebro virou navegador: cheio de abas abertas, metade travada. E quando a gente tenta reiniciar, já é hora de dormir — ou fingir que dorme, porque a cabeça continua atualizando. 

Outro dia, me peguei pensando: "Acho que tô esquecendo alguma coisa..." 

E tava. 

Tava esquecendo de mim. De viver.