Jovens estudantes, muitas vezes antes mesmo da conclusão da formação, já apresentam quadros de ansiedade, depressão, esgotamento emocional e desesperança profissional
A medicina brasileira vive um dos períodos mais complexos de sua história recente. Nunca se produziu tanto conhecimento científico, nunca houve tantos recursos diagnósticos e terapêuticos disponíveis e jamais a sociedade depositou expectativas tão elevadas sobre os profissionais da saúde. Paradoxalmente, nunca também foram tão frequentes os relatos de exaustão emocional, sofrimento psíquico, desgaste profissional e perda de sentido existencial entre médicos e estudantes de medicina.
A discussão sobre saúde mental deixou há muito de ser tema restrito à psiquiatria ou à psicologia. Tornou-se questão central da própria organização social contemporânea e, particularmente, da medicina. O profissional médico encontra-se hoje submetido a múltiplas pressões simultâneas: responsabilidade técnica crescente, judicialização das relações profissionais, intensificação da carga de trabalho, perda progressiva de autonomia, exigências burocráticas e expectativas sociais frequentemente incompatíveis com as limitações reais da ciência médica.
No Brasil, esse cenário adquire contornos ainda mais delicados. As desigualdades estruturais do país, a sobrecarga histórica do sistema público de saúde, a expansão acelerada das escolas médicas e a progressiva deterioração das relações institucionais contribuíram para a construção de ambiente de permanente tensão emocional no exercício da profissão. Como consequência, observa-se crescimento significativo dos índices de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e sofrimento emocional entre profissionais e estudantes da área médica.
Entretanto, talvez o aspecto mais preocupante dessa realidade seja o fato de que o sofrimento psíquico deixou de atingir apenas profissionais experientes submetidos a anos de desgaste. Ele passou a manifestar-se de maneira cada vez mais precoce, ainda durante a graduação e, especialmente, durante a residência médica. Jovens estudantes, muitas vezes antes mesmo da conclusão da formação, já apresentam quadros de ansiedade, depressão, esgotamento emocional e desesperança profissional.
Estudos mostram que médicos têm um risco 1,4 a 2,3 vezes maior de suicídio em relação à população geral. Entre as médicas, esse risco pode ser ainda mais expressivo, chegando a ser 2,7 vezes maior. No mundo, análise recente sugere que médicas enfrentam risco de suicídio 76% maior que a população feminina em geral. Nos Estados Unidos, estima-se que 300 a 400 médicos morram por suicídio a cada ano. Esse fenômeno não pode ser compreendido apenas como fragilidade individual. Trata-se, sobretudo, de manifestação de uma crise estrutural da formação médica contemporânea e da forma como a sociedade passou a se relacionar com a medicina. Especialidades médicas podem aumentar a taxa de suicídio: anestesistas, psiquiatras, oftalmologistas e patologistas são referidos como os mais vulneráveis.
Simon, realizando um estudo retrospectivo em 62 escolas médicas norte-americanas e três canadenses, concluiu que o suicídio é a segunda causa de morte entre os estudantes de medicina, perdendo apenas para os acidentes. Os dados encontrados com os alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo aproximaram-se aos dos obtidos por Simon; não há estudos em outras faculdades de medicina do Brasil sobre esse assunto. Segundo trabalhos de Millan et al. e De Marco et al., alunos de medicina com melhor performance escolar encontram-se em um grupo de alto risco de suicídio.
A sociedade atual caracteriza-se por ritmo acelerado, hiperconectividade permanente, competitividade intensa e crescente intolerância à frustração. Vive-se uma cultura de imediatismo na qual o sofrimento humano frequentemente deixa de ser compreendido como parte inerente da experiência existencial para tornar-se algo que deve ser rapidamente eliminado, medicalizado ou tecnicamente resolvido. Nesse contexto, a medicina passou gradativamente a ser percebida não apenas como atividade de cuidado, mas como serviço de resultado obrigatório.
Tal transformação alterou profundamente a relação médico-paciente. O vínculo terapêutico, historicamente baseado em confiança, responsabilidade compartilhada e reconhecimento das limitações humanas, passou progressivamente a incorporar lógica contratual e consumerista. O paciente, muitas vezes compreendido como consumidor, passa a exigir resultados absolutos de uma ciência que, por sua própria natureza, permanece limitada pela biologia, pela imprevisibilidade clínica e pela finitude humana.
Essa mudança produziu consequências significativas para a saúde mental dos profissionais. O médico contemporâneo vive frequentemente sob permanente estado de vigilância. O medo do erro, da exposição pública, da judicialização e da responsabilização institucional tornou-se componente cotidiano da prática médica. Em muitas situações, o exercício da medicina passou a ser acompanhado não apenas pela preocupação legítima com o cuidado ao paciente, mas também pela constante necessidade de autoproteção jurídica e administrativa.
A judicialização da medicina representa um dos fenômenos mais marcantes das últimas décadas. Evidentemente, mecanismos de responsabilização profissional são indispensáveis em qualquer sociedade democrática. A medicina não pode, e não deve estar imune ao controle ético, técnico e institucional. Entretanto, observa-se frequentemente uma ampliação desproporcional da lógica litigiosa aplicada à atividade médica, gerando ambiente de insegurança permanente.
A medicina, diferentemente de muitas outras atividades humanas, lida diariamente com dor, sofrimento, limitações biológicas e morte. Mesmo a conduta tecnicamente correta não é capaz de garantir desfechos favoráveis em todos os casos. Ainda assim, parte da sociedade contemporânea parece desenvolver expectativa irreal de infalibilidade médica, como se a ciência tivesse obrigação de superar definitivamente a condição humana.
Essa incompreensão acerca dos limites da medicina contribui para crescente desgaste simbólico da profissão. Em diversos contextos, o médico passou a ser percebido simultaneamente como responsável absoluto pelos resultados clínicos e, paradoxalmente, como figura constantemente submetida à suspeição técnica e moral.
Tal realidade produz impacto profundo sobre a saúde mental dos profissionais. O medo constante da acusação, da exposição pública e da perda reputacional favorece o desenvolvimento de ansiedade crônica, esgotamento emocional e progressiva desumanização das relações assistenciais. Muitos médicos passam a adotar práticas defensivas não necessariamente em benefício do paciente, mas como mecanismo de proteção jurídica e institucional.
Paralelamente, o modelo contemporâneo de organização do trabalho médico intensificou significativamente o desgaste profissional. Jornadas extensas, múltiplos vínculos empregatícios, remuneração frequentemente incompatível com o grau de responsabilidade assumida e crescente burocratização da prática médica transformaram a rotina profissional em experiência de exaustão contínua.
Em diversas instituições de saúde, especialmente nos grandes centros urbanos, a lógica produtivista passou a ocupar posição central. O tempo de consulta reduz-se progressivamente, a pressão por metas aumenta e a atividade médica aproxima-se perigosamente de modelo industrial de produtividade. O resultado inevitável é o enfraquecimento da dimensão humana do cuidado.
A síndrome de Burnout tornou-se expressão emblemática desse processo. Caracterizada por exaustão emocional, despersonalização e perda da realização profissional, ela atinge atualmente parcela significativa da categoria médica. Muitos profissionais relatam sensação de esvaziamento existencial, perda da empatia e incapacidade progressiva de encontrar sentido na atividade que anteriormente representava vocação e propósito.
Contudo, talvez o dado mais alarmante seja a naturalização desse sofrimento dentro da própria cultura médica. Durante décadas, consolidou-se no imaginário profissional a ideia de que resistência extrema ao desgaste físico e emocional constituiria característica inerente ao “bom médico”. A vulnerabilidade psicológica passou muitas vezes a ser interpretada como sinal de fraqueza ou insuficiência profissional.
Esse padrão cultural inicia-se precocemente, ainda na graduação. O ensino médico brasileiro permanece fortemente marcado por competitividade intensa, elevada carga horária e cultura de desempenho permanente. O estudante de medicina frequentemente ingressa na universidade trazendo consigo histórico de alta exigência pessoal e forte investimento identitário na profissão. Entretanto, ao longo da formação, passa a confrontar-se com ambiente emocionalmente hostil e institucionalmente pouco acolhedor.
A exposição precoce à dor, à doença e à morte frequentemente ocorre sem suporte psicológico adequado. Muitos estudantes vivenciam sentimentos de impotência diante do sofrimento humano, mas encontram escasso espaço institucional para elaboração emocional dessas experiências. A lógica acadêmica privilegia frequentemente o domínio técnico e cognitivo, relegando os aspectos subjetivos da formação à posição secundária.
Além disso, persistem em diversos ambientes de formação práticas pedagógicas autoritárias e relações hierárquicas rigidamente verticalizadas. Situações de humilhação pública, assédio moral e violência psicológica ainda são relatadas em diferentes contextos acadêmicos e hospitalares. Em nome de uma suposta “formação para a dureza da profissão”, reproduzem-se dinâmicas institucionais que frequentemente contribuem para adoecimento psíquico precoce.
A residência médica representa etapa particularmente crítica desse processo. Embora constitua período fundamental de especialização técnica e amadurecimento profissional, tornou-se também espaço historicamente marcado por jornadas excessivas, privação de sono e elevada pressão assistencial.
O residente ocupa posição paradoxal dentro das instituições hospitalares: é simultaneamente médico formado e profissional em formação. Carrega responsabilidades assistenciais concretas, porém frequentemente dispõe de limitada autonomia e reduzido suporte emocional. Não raramente, o sofrimento psíquico do residente é banalizado como parte inevitável do processo formativo.
Nesse cenário, torna-se impossível dissociar a discussão sobre saúde mental da discussão sobre modelo de ensino médico vigente no Brasil. A expansão acelerada do número de escolas médicas nas últimas décadas trouxe consigo preocupações legítimas relacionadas à qualidade da formação. Em muitos casos, observa-se insuficiência de infraestrutura, fragilidade pedagógica e escassez de campos adequados de prática.
Entretanto, os problemas não se limitam à dimensão estrutural. Há igualmente crise de natureza filosófica e humanística. Grande parte da formação médica permanece excessivamente centrada no modelo biomédico tradicional, com ênfase quase exclusiva na doença, na técnica e na objetividade diagnóstica. As dimensões subjetivas, sociais e existenciais do adoecimento humano frequentemente recebem atenção secundária.
A fragmentação curricular contribui para essa dificuldade. O estudante aprende múltiplas especialidades, protocolos e procedimentos, mas frequentemente encontra poucas oportunidades de reflexão profunda sobre sofrimento, vulnerabilidade humana, ética e finitude. Forma-se, assim, profissional tecnicamente capacitado, porém muitas vezes emocionalmente despreparado para lidar com as complexidades humanas inerentes à medicina.
Nos últimos anos, outro elemento passou a ocupar posição central no debate sobre formação médica: a crescente interferência externa sobre os processos acadêmicos e seletivos da residência médica, especialmente por meio da judicialização de políticas afirmativas e mecanismos diferenciados de ingresso.
O tema produz intensos debates éticos, jurídicos e institucionais. Os defensores dessas políticas sustentam que ações afirmativas representam instrumentos legítimos de reparação histórica e promoção de diversidade social no interior das especialidades médicas. Argumenta-se que a democratização do acesso às posições de maior prestígio dentro da medicina constituiria medida socialmente necessária em sociedade marcada por profundas desigualdades estruturais.
Por outro lado, parcela significativa da comunidade médica manifesta preocupação quanto à aplicação dessas políticas especificamente na residência médica. O principal argumento consiste na compreensão de que a residência representa etapa de especialização profissional posterior à graduação, momento em que todos os candidatos já possuem habilitação legal idêntica para o exercício da medicina.
Sob essa perspectiva, sustenta-se que mecanismos de facilitação de acesso entre profissionais igualmente graduados poderiam fragilizar o princípio meritocrático tradicionalmente associado à seleção para programas de elevada complexidade técnica. Há ainda preocupação crescente quanto à expansão da interferência judicial sobre critérios historicamente pertencentes à autonomia universitária e hospitalar.
Independentemente da posição adotada nesse debate, é inegável que a judicialização crescente da formação médica evidencia processo mais amplo de tensionamento institucional da medicina brasileira. A profissão passou a ocupar posição de permanente disputa política, ideológica e jurídica, frequentemente submetida a intervenções externas que ultrapassam a discussão puramente pedagógica.
Esse fenômeno contribui para aumento da insegurança institucional dentro das universidades e hospitais-escola. Muitos profissionais percebem progressiva erosão da autonomia acadêmica e crescente substituição de critérios técnicos por decisões políticas ou judiciais. Tal percepção intensifica sentimentos de instabilidade e desgaste emocional já amplamente presentes no ambiente médico.
Ao mesmo tempo, observa-se progressiva deterioração simbólica da figura do médico dentro de determinados setores sociais. Em muitos contextos, críticas legítimas à estrutura dos sistemas de saúde passam equivocadamente a ser direcionadas indistintamente aos profissionais individualmente considerados. Cria-se ambiente de hostilidade generalizada que frequentemente ignora a complexidade ética, científica e humana inerente ao exercício da medicina.
Nesse contexto, cabe reflexão profundamente necessária. Todas as vezes que se observam condutas sociais que banalizam a medicina, relativizam seus fundamentos éticos ou se insurgem despropositadamente contra a atividade médica, parece evidente o esquecimento de uma verdade elementar: todos os seres humanos, inevitavelmente, necessitarão de cuidado médico em algum momento da vida.
Tal realidade remete simbolicamente à antiga tradição romana segundo a qual os generais vitoriosos, durante seus desfiles triunfais, eram acompanhados por um soldado encarregado de lhes repetir continuamente ao ouvido a expressão Memento mori — “lembre-se de que és mortal”. A advertência possuía profundo significado filosófico: recordar aos homens, mesmo nos momentos de glória e poder, os limites inevitáveis da condição humana.
Parafraseando esse ensinamento histórico, talvez parte da sociedade contemporânea necessite igualmente ser lembrada de sua própria vulnerabilidade biológica. Todos, sem exceção, dependerão em algum momento do conhecimento, da dedicação e da presença de um médico; seja para si próprios, seja para familiares.
Isso não significa atribuir à medicina condição sagrada ou imune à crítica. Nenhuma profissão deve estar acima do escrutínio ético e institucional. A crítica responsável constitui elemento indispensável ao aperfeiçoamento democrático das instituições. Contudo, existe diferença substancial entre crítica legítima e deslegitimação sistemática.
Quando o conhecimento técnico passa a ser banalizado, quando o médico é permanentemente tratado sob suspeição e quando se instala cultura de hostilidade contínua contra a profissão, deteriora-se não apenas a autoridade médica, mas também a própria confiança social indispensável à relação terapêutica.
A medicina não é mera atividade técnica. Trata-se de profissão profundamente fundada no encontro humano diante da fragilidade, da dor e da finitude. O médico ocupa posição singular na organização social justamente porque lida cotidianamente com os limites fundamentais da existência humana.
Por essa razão, a discussão sobre saúde mental na medicina não pode restringir-se a estratégias individuais de enfrentamento emocional. Não basta recomendar resiliência, autocuidado ou acompanhamento psicológico se permanecem inalteradas as estruturas institucionais e culturais produtoras de sofrimento.
Torna-se urgente repensar profundamente o modelo contemporâneo de formação e exercício profissional médico no Brasil. A humanização da medicina não pode permanecer apenas como discurso retórico presente em documentos institucionais ou diretrizes curriculares. Ela precisa traduzir-se concretamente em mudanças estruturais.
É necessário recuperar a centralidade das humanidades na formação médica. Filosofia, ética, psicologia, sociologia e bioética não constituem conteúdos acessórios, mas instrumentos fundamentais para compreensão da complexidade humana do adoecimento. O médico precisa ser preparado não apenas para interpretar exames ou executar procedimentos, mas também para lidar com sofrimento, medo, vulnerabilidade e morte.
Da mesma forma, as instituições formadoras precisam reconhecer a saúde mental dos estudantes e residentes como prioridade real. Serviços de apoio psicológico, espaços institucionais de escuta e revisão das culturas pedagógicas violentas constituem medidas indispensáveis.
No âmbito assistencial, faz-se igualmente necessária valorização mais efetiva do trabalho médico. Nenhuma profissão submetida a jornadas exaustivas, insegurança institucional permanente e desgaste simbólico contínuo consegue preservar integralmente sua dimensão humanística.
A medicina brasileira atravessa momento decisivo. O desafio contemporâneo não consiste apenas em formar profissionais tecnicamente competentes, mas em preservar o sentido ético, humano e civilizatório da própria medicina. Caso contrário, corre-se o risco de produzir geração de médicos altamente especializados do ponto de vista técnico, porém emocionalmente adoecidos, institucionalmente desmotivados e progressivamente distanciados da essência humanística da profissão.
O cuidado com a saúde mental dos médicos e estudantes não representa privilégio corporativo. Trata-se de questão diretamente relacionada à qualidade da assistência prestada à população e à preservação ética das relações de cuidado.
Sociedades que desvalorizam sistematicamente seus profissionais da saúde acabam inevitavelmente comprometendo a própria estrutura civilizatória do cuidado humano. Afinal, diante da dor, da doença e da morte, todos permanecemos igualmente vulneráveis. E é precisamente nesse ponto de vulnerabilidade compartilhada que reside a verdadeira dimensão ética da medicina.
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