Simonetti com os filhos, noras e netos
Dr. Celso Augusto de Nadalini Simonetti
Um legado que transformou a Ortopedia brasileira por meio da ciência, do ensino e da construção institucional.
O Dr. Celso Augusto de Nadalini Simonetti nasceu em 1936, na cidade de Tietê (SP), filho de Augusto Simonetti e Virginia de Nadalini Simonetti. Em 1955, transferiu-se para Sorocaba, onde realizou o curso preparatório para o vestibular da Faculdade de Medicina, ingressando em 1956 na então recém-criada Faculdade de Medicina de Sorocaba, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
A instituição, pioneira como escola médica instalada no interior do Brasil, foi viabilizada graças à visão do Sr. Antônio Ermírio de Moraes, por meio do grupo Votorantim, que doou o Hospital Santa Lucinda e estruturou o edifício destinado ao ensino das ciências básicas. O corpo docente era composto majoritariamente por professores vinculados à Universidade de São Paulo, entre eles o Professor Dr. Luiz Gustavo Wertheimer, responsável pela disciplina de Ortopedia, que teria papel central na formação e trajetória de Simonetti.
Aluno da primeira turma graduou-se em 1961. Ainda durante o curso, destacou-se pelo interesse precoce na especialidade frequentando voluntariamente, a partir do quarto ano, o ambulatório de Ortopedia e as atividades do Professor Wertheimer. Em 1962, foi indicado como primeiro assistente da recém-criada disciplina de Ortopedia, assumindo funções de ensino em Semiologia Ortopédica e atendimento ambulatorial.
Naquele período, a Ortopedia brasileira ainda estava em consolidação. Muitos profissionais atuavam como cirurgiões gerais que se dedicavam ao tratamento de fraturas, e a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) apresentava um caráter marcadamente elitista, com forte influência de médicos formados no exterior. O processo de formação estruturada começava a se delinear com os primeiros exames do TEOT.
Foi nesse contexto que Simonetti se destacou não apenas como clínico e docente, mas sobretudo como organizador e construtor institucional. Sua capacidade de estruturação e liderança chamou a atenção do Professor Wertheimer, que o levou à SBOT. Em 1971, com a eleição de Wertheimer para a presidência da Sociedade, Simonetti assumiu o cargo de Secretário-Geral, função que exerceu por cerca de 14 anos, entre 1973 e 1987.
À época, a Secretaria Geral concentrava toda a atividade administrativa da SBOT, sediada estatutariamente em São Paulo, exigindo dedicação intensa e presença constante. Simonetti transformou essa função, conferindo-lhe identidade própria, eficiência administrativa e continuidade institucional. Tornou-se profundo conhecedor da Sociedade e participou ativamente de seu crescimento, que acompanhou a expansão da especialidade no Brasil.
Durante esse período, a SBOT passou por transformações importantes: ampliação do número de sócios, definição de critérios mais claros de participação, fortalecimento da formação especializada e maior inserção internacional. Simonetti esteve no centro dessas mudanças.
Paralelamente, construiu sólida carreira acadêmica. Em 1971, defendeu sua tese de doutoramento – “Reparação das Fraturas (Estudo Experimental do Calo Ósseo)” – aprovada com distinção. Assumiu a coordenação da disciplina de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina de Sorocaba, função que exerceu até 1993, contribuindo decisivamente para a formação de gerações de ortopedistas.
Também teve papel relevante na estruturação assistencial da região. Em 1975, foi convidado a organizar o serviço de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, que permanece em atividade até os dias atuais. Em 1978, assumiu a chefia do INAMPS local, função que exerceu até a criação do SUS.
Em 1987, coroando uma trajetória de dedicação institucional, foi eleito Presidente da SBOT. Sua gestão marcou uma mudança de paradigma na Sociedade. Simonetti foi protagonista de um processo de democratização, rompendo com o caráter elitista que historicamente marcava a entidade.
Incentivou a participação das regionais, ampliou o espaço para os sócios, valorizou a defesa profissional e aproximou a SBOT da realidade do ortopedista brasileiro. Trouxe para a Sociedade nomes importantes, como George Bitar, fortalecendo a área de defesa profissional, e promoveu uma visão mais inclusiva da especialidade.
Defendia que o ortopedista não deveria ser visto como alguém que “faz o favor” de exercer a especialidade, mas como um profissional qualificado, merecedor de reconhecimento e respaldo institucional. Essa visão ajudou a consolidar a SBOT como uma entidade mais representativa, moderna e alinhada com as necessidades da classe.
Sua atuação também teve impacto nas sucessões institucionais, contribuindo para a continuidade desse processo de transformação, apoiando lideranças comprometidas com a mesma filosofia de inclusão e fortalecimento da Sociedade.
Além da vida profissional, construiu uma sólida base familiar. Casou-se em 1962 com Neide de Moraes Simonetti, com quem teve cinco filhos e formou uma família numerosa, que inclui netos e segue como parte importante de sua história.
Mesmo após décadas de atuação, manteve-se ativo na prática médica e no ensino, acompanhando alunos e residentes, sempre com o mesmo compromisso que marcou toda a sua trajetória.
Celso Simonetti foi, acima de tudo, um construtor — da Ortopedia, da SBOT e de uma forma mais justa, democrática e estruturada de exercer a especialidade no Brasil. Seu legado permanece vivo na instituição que ajudou a transformar e nas gerações que formou.