Fofoca é como fermento biológico: onde tem gente, ela cresce. Não importa o país, o idioma, o clima ou o fuso horário; se duas pessoas estão conversando e a terceira não está presente, a probabilidade de surgir uma fofoca é altíssima. A fofoca é o verdadeiro motor da convivência; movida a curiosidade, especulação e aquela irresistível vontade de saber a história inteira, mesmo quando ninguém sabe ao certo onde ela começou.
E não, não é invenção brasileira. "Gossip" nos Estados Unidos, "commérage" na França, "chiacchiere" na Itália, "kotowaza" no Japão... o nome muda, o impulso permanece.
A fofoca é humana... demasiado humana.
Mas o Brasil... ah, o Brasil sempre dá um passo além. Basta alguém dizer: “Você ficou sabendo?". É a senha universal que abre o portal do entretenimento moral.
Afinal, somos um povo que começa o Hino Nacional com um "ouviram do Ipiranga". Nosso DNA auditivo já nasce calibrado para escutar o que disseram que alguém ouviu.
E, claro, há o nosso clássico, talvez o mais brasileiro dos bordões:
"Como diz o outro..."
Quem é "o outro"?
Ninguém sabe.
Ninguém nunca viu.
O "outro" é patrimônio cultural, entidade que autoriza qualquer comentário sem que o autor arque com as consequências.
O outro é o responsável técnico da fofoca.
No Brasil, a fofoca não é apenas uma conversa paralela; é um tecido social.
Nasce no portão entreaberto, cresce no grupo do condomínio, floresce na mesa de bar e atinge o ápice nos bastidores das festas de família, onde sempre há alguém que chega dizendo: "Posso contar? Mas não espalha..."; frase que, convenhamos, já é espalhamento automático.
Mas não sejamos injustos: a fofoca pode até unir.
Ajuda a construir alianças, protege amigos, alerta sobre perigos e, às vezes, até salva reputações, ainda que, na maioria das vezes, as destrua antes. Serve para organizar o caos humano, para filtrar quem presta, quem finge prestar e quem presta exclusivamente para criar novas fofocas.
É curioso: ninguém admite fofocar. Todo mundo "só repassa o que ouviu".
A fofoca é a única atividade coletiva em que 100% dos participantes negam participação.
E há tipos.
A fofoca cordial, dita com ar de quem só está "preocupado".
A fofoca gourmet, com detalhes tão produzidos que exigem memória fotográfica.
A fofoca cooperativa, feita em dupla, onde um fala e o outro acrescenta ingredientes.
E a fofoca espiritualizada, sempre seguida de: "Mas Deus sabe de todas as coisas...".
Fofoca tem uma habilidade peculiar: ela se autopropaga. Basta uma frase solta, um olhar torto ou um "me contaram..." e pronto, nasce uma saga. Não precisa de lógica, nem de fonte. Precisa só de plateia.
O mais curioso é que a fofoca nunca fala só do assunto. Ela revela quem puxa a cadeira, quem acende o pavio, quem aplaude do fundo. É quase um raio-X da alma alheia, porém feito sem consentimento.
E, quando menos se espera, a história cresce, muda de roupa e volta para o ponto de partida; sempre com detalhes que ninguém pediu.
Por isso, antes de soltar um comentário, convém lembrar:
a informação corre. E às vezes corre na sua direção.
No fim, toda fofoca tem um talento especial: ela sempre encontra o caminho de volta.
E volta ligeiramente piorada.