Terça-feira, manhã com neblina em Brasília, a chuva começou a fazer barulho lá fora e me tirou da cama mais cedo. Conferi as atividades do dia e resoluto, envolto por um imediatismo pragmático, me arrumei de forma célere. O dia urge! O telefone celular, sonoro e provocativo me avisou de um chamado importante. Era o Santili, que me ligava de São Paulo. Conversamos com a sintonia de sempre, mas desta vez havia uma missão. Honrosa e prazerosa. Uma convocação para escrever artigos no Jornal da SBOT, de forma periódica, tarefa que muito me alegrou. Percorri o dia inteiro a pensar no tema da minha escrita.
A inspiração, para mim, é um processo de ordenha cognitiva que deve ser cultivado. Por vezes vem sofrida, por vezes em ato reflexo. Restava saber como seria. À noite, após um dia exaustivo de obrigações, ainda carregava dúvidas sobre o que escrever. Deitei-me na cama, liguei o CPAP e adormeci, ao suprir as minhas vias aéreas de ventilação.
Na segunda metade da madrugada, no sono REM, me transportei para o mundo dos sonhos. Estava eu a percorrer uma estrada longa e infinita, cercado de Campos Elíseos. Na mitologia grega, o Elíseo é o paraíso destinado aos audazes, afortunados, virtuosos e abençoados, aqueles que trouxeram dignidade ao mundo na existência terrena. Havia uma mesa imensa, toda de granito com suporte dourado, com muitas cadeiras nas cercanias. E muitas pessoas sentadas nelas. O ar estava envolto pela névoa clara. Parecia um encontro gastronômico de fim da tarde, algo comemorativo. A atmosfera era de um júbilo paradoxal, pois heterogênea, com homens animados, mas outros bastante circunspectos. Ali eu era um observador, completamente curioso e perplexo. Silencioso, tímido e cauteloso, me aproximei lentamente.
Eu estava a uns duzentos metros deles, e eles me pareciam familiares. Eram figuras notáveis que eu aprendi a admirar. Esfreguei os meus olhos lacrimejantes como em um ajuste telescópico da minha visão. No instante singular, naquele momento especial, voltei na ampulheta do cronos, eu era um jovem aprendiz de ortopedia que mirava os ícones com uma vibração intensa. Taquicárdico, enebriado pela emoção, o primeiro que vi foi Insall. O sábio professor, sentado à mesa, tomava um malte dos bons, sem gelo, e ria com o seu inconfundível charme inglês. Conversava animadamente com Paul Harrington, o pai da instrumentação da coluna vertebral.
Um contava histórias jocosas e o outro gargalhava forte. O meu alter ego aplaudia. Como que em um relâmpago, surgiu abraçando os colegas a figura mítica de Charnley, com um charuto a vergar-lhe a rima labial. Perguntou onde estava o francês e saiu apressado, cantando uma música dos Beatles. Falaram que devia estar com o russo. Em poucos minutos, o senhor de Lyon apareceu, a figura esguia de Nicolas Andry junto a um Ilizarov quieto, analítico e comedido. Formavam uma boa dupla de amigos, empáticos e absortos na própria conversa. Incrédulo, eu não queria acordar, era um momento de máximo surrealismo, um encontro impossível de acontecer!
De olhos arregalados passei entre eles. A vibração de energia e de cultura era indescritível. Não me enxergavam, eu era um ser invisível e atônito. Na minha frente, imersos em um cosmopolitismo atemporal, estavam vários nomes que definiram, ressignificaram e desenvolveram a clínica e a cirurgia ortopédica no mundo: Bado, Maurice Muller, Sarmiento, Malgaigne, Hey Groves, Smith-Petersen, Mathysen, Trueta, Kuntscher, Bircher, Yassuda, entre outros. Haja et cetera! Uma confluência quase aristotélica de personagens em um encontro espetacular. Eu estava feliz, atravessei o olhar no horizonte e vi Nova Monteiro, Puech, Hungria, Koberle e Paccola. O nosso time de brasileiros estava presente.
A “seleção canarinho” brilhava! Por certo haveria mais representantes do nosso solo pátrio. Subitamente acordei, sobressaltado e ofegante. Retomava a realidade, cativado pela lembrança nítida e hipnótica de um panteão glorioso que invadiu o meu imaginário. Caro leitor, no ápice do sono profundo, sonhei com o pódio dos heróis que dedicaram as suas vidas à ortopedia, seja na ciência com as descobertas ou na prática de resultados e me deparei com o objeto que a minha veia de escritor tanto procurava.