Médico saiu do Brasil anos depois de formado, recomeçou nos EUA e hoje lidera a área de Pé e Tornozelo em hospital ligado a uma das mais importantes universidades do mundo
Para Fernando Raduan, a ideia de atuar no exterior não surgiu da noite para o dia. Foi se construindo aos poucos e, quando passou a considerar a mudança de forma mais concreta, já tinha uma carreira consolidada no Brasil. Formado em medicina em São Paulo e com especialização em Ortopedia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vinha de anos de atuação na área.
Antes, a escolha pela ortopedia veio de forma natural. “Eu sempre gostei de trabalhar com as mãos, de construir, de consertar. Quando tive contato com a ortopedia, tudo isso fez sentido”, conta. O interesse por esporte e por atividades práticas ajudou a definir o caminho, que depois se consolidou nas áreas de pé e tornozelo e medicina esportiva.
A relação com o exterior começou ainda durante a carreira no Brasil, a partir de experiências em centros internacionais. Com o tempo, essa vivência passou a influenciar suas decisões. “Não teve um momento específico. Foi um acúmulo de fatores — vontade de trabalhar em ambientes de excelência, fazer pesquisa e também um certo descontentamento com a realidade brasileira”, diz.
A mudança exigiu um recomeço. Anos depois de formado, voltou a estudar conteúdos básicos de medicina, enfrentou provas longas e exigentes e precisou se adaptar a um sistema altamente competitivo. “Foi como refazer a faculdade. Tive que rever conteúdos que tinha visto mais de 20 anos antes e outros que nem existiam na época”, afirma. Tudo isso conciliando trabalho, família e uma rotina intensa.
Hoje, Raduan atua no Beth Israel Deaconess Medical Center, hospital ligado à Harvard Medical School, onde assumiu recentemente a chefia da divisão de Pé e Tornozelo. A nova função ampliou as responsabilidades e o colocou mais próximo de decisões e discussões estratégicas dentro do hospital, além de manter a atuação clínica e a formação de novos médicos.
Na prática, ele conta, trabalhar nos Estados Unidos apresenta diferenças importantes. A medicina é mais baseada em métricas e produtividade, e a relação com o paciente costuma ser mais distante. Ainda assim, observa que o cuidado mais próximo continua fazendo diferença e que pequenos gestos de atenção acabam sendo ainda mais valorizados nesse contexto.
Ao olhar para a trajetória, ele evita apontar um único momento ou uma conquista isolada. Destaca o percurso como resultado de uma sequência de etapas e decisões. Diz que, se pudesse, teria começado antes. E que não é um caminho para quem busca atalhos ou está pensando apenas no retorno financeiro. “Você precisa gostar de estudar, de ensinar, de fazer pesquisa. Se não, não vale a pena”, afirma.
Mesmo com a vida estruturada nos Estados Unidos, o Brasil segue presente — na família, na língua, nos hábitos. E talvez isso ajude a explicar que a mudança não foi uma ruptura, mas um movimento construído ao longo do tempo, que continua em curso.